Os rumos do PSOL após o seu 7º Congresso Nacional

 

 

Babá, Rosi Messias e Denis Melo – Dirigentes da CST

 

No calor dos acontecimentos políticos e da dinâmica interna do PSOL, já é possível afirmar que o 7º congresso do PSOL marcou uma virada histórica, uma inflexão decisiva que poderá lhe custar sua própria sobrevivência enquanto partido de esquerda e independente.

 

A artificialidade, a despolitização e a falta de debate real entre os filiados desaproveitou o congresso para armar a militância na luta contra Bolsonaro e o ajuste fiscal e foi apenas um capítulo do que realmente importava para a maioria da direção: pela primeira vez, o PSOL aponta que poderá não ter candidatura própria e preparou o terreno para embarcar oficialmente na frente amplíssima, encabeçada por Lula e setores patronais.

 

Sob a justificativa de enfrentamento à extrema direita, a nova maioria do partido articula dois movimentos: negociar seu ingresso na frente lulista nas eleições para barganhar em melhores condições de estar num eventual governo Lula.

 

O debate sobre a frente ampla, sem dúvida, foi a principal discussão do congresso e seguirá de maneira muito intensa até 2022. A votação de Conferência eleitoral para o ano que vem só servirá para a direção majoritária ganhar tempo para negociar com o PT os palanques estaduais. Negociam com Lula e o PT, que busca Luiza Trajano, uma das maiores bilionárias do país, para ser sua vice empresária.

 

A resolução sobre participação em eventuais governos votada pela maioria não impede a entrada do PSOL em governos de conciliação de classes e deixa ao DN a tarefa de caracterizar o governo, como se o caráter de classe de um governo não fosse definido em razão de seu programa, alianças e localização social e pudesse ser “eleito” como de esquerda ou direita de acordo com a vontade dos dirigentes do PSOL.

 

É uma mudança de qualidade. Isso porque a política de conciliação de classes impulsionada pela ala majoritária da direção, que já está em curso na Prefeitura de Belém, onde o PSOL governa com o PT e pactuando com o MDB dos Barbalho, expressou-se também na campanha de Eduardo Paes, no segundo turno das últimas eleições do Rio de Janeiro. Agora, trata-se do governo central e, portanto, sua completa adaptação ao regime político.

 

O ponto decisivo para formação de uma nova maioria e a vitória da política de frente ampla no congresso foi impulsionada pela Resistência, Insurgência e Subverta. Vulgarizando o trotskismo, pinçam trechos da orientação da IV internacional em meio a um regime fascista, mas escondem categoricamente que Trotsky sempre orientou a batalha contra governos de conciliação de classes, seja ela diretamente com setores patronais ou “sobre a sombra da burguesia”.

 

Os impactos pós-congresso e a política da esquerda partidária

 

O anúncio das resoluções do congresso do PSOL gerou impactos imediatos à direita e à esquerda, mas que derivam de uma mesma natureza: a política de frente ampla com a burguesia. À direita, diversas figuras, após garantir apoio ao setor da maioria, só aguardaram o fim do congresso para anunciar sua saída do partido. Seguem, assim, o caminho de Marcelo Freixo, que, consequente com a política da maioria da frente ampla, optou por ir para um partido burguês, o PSB, para costurar os governos de conciliação de classes. Esse será o provável caminho de alguns parlamentares do PSOL na próxima janela partidária.

 

Porém, também à esquerda, diante da frustração e da constatação de que o PSOL caminha a passos largos para entregar sua independência de classe, vários ativistas anunciam que não pretendem seguir filiados ao PSOL.

 

De nossa parte, acreditamos que o mais importante no momento é a batalha por um polo ao redor de duas tarefas fundamentais: a independência de classe e a intervenção decisiva nas lutas. Para isso, foi muito importante a decisão de manutenção da candidatura do companheiro Glauber Braga até a conferência eleitoral. A manutenção dessa batalha, que contou com 44% dos delegados do congresso, é um obstáculo concreto à maioria da direção partidária pró-Lula.

Ao redor da disputa programática contra a frente ampla, a intervenção concreta nas lutas e a disputa contra a burocracia sindical da CUT e da CTB e contra a política do PT e do PCdoB, que apostam na paralisia, pode abrir mais caminho para uma verdadeira frente de esquerda e socialista. O exemplo do resultado das prévias nas eleições na Argentina e o espaço que conseguiu ocupar a Frente de Esquerda Unidade são a prova viva do que dizemos.

 

Essa batalha também está em razão de que a posição de adesão ao Lulismo tem apenas uma frágil maioria. Não se conseguiu impor nesse congresso uma maioria como a Articulação no PT (corrente majoritária com larga vantagem). A Primavera Socialista contou com cerca de 25% do congresso. A votação da direção que elegeu a maioria teve 57% dos votos.

 

A batalha no PSOL está concentrada fundamentalmente na base, nos lugares onde há ativistas simpáticos ao partido e que são parte das lutas. O desfecho das lutas do próximo período poderá impactar a política de frente ampla e nesse caso, a própria política do PSOL, que não se define por quem simplesmente tem o controle burocrático do partido.

 

Nesse sentido, o papel da oposição, que se expressou em quase metade do Congresso, é fundamental. Por isso, avaliamos ter sido um erro das correntes do campo de oposição terem votado com a majoritária a resolução sobre financiamento. Nós, da CST, apresentamos uma resolução contrária, denunciando que é impossível não receber financiamento empresarial estando em frentes eleitorais com os patrões, como pretende a maioria da direção.

 

Por fim, os próximos capítulos e as batalhas decisivas ainda estão por vir. Por isso, insistimos que os setores de oposição se constituam em um polo para dar continuidade a essa batalha. Com o nome de Glauber Braga, disputando um programa alternativo e com caráter de classe e uma estratégia diferente para o PSOL. Um polo que, como fração pública, desautorize os que, em nosso nome, entregam o partido nas mãos do lulismo e que defenda a construção de uma Frente de Esquerda e Socialista.

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