Por que Lula segue ausente dos protestos contra Bolsonaro?

Diego Vitelo, SEN da CSP-CONLUTAS

Lula é hoje a principal figura política de oposição a Bolsonaro no país. Desde maio, os calendários unificados de mobilização têm movido centenas de milhares nos protestos contra o governo da extrema direita. Apesar de mais fracos que os primeiros atos, as mobilizações do dia 2 de outubro mostram disposição de seguir lutando nas ruas contra o governo. Mesmo assim, o ex-presidente Lula segue ausente dos protestos. Isso se dá, em nossa opinião, porque o centro da política de Lula, infelizmente, não é derrotar Bolsonaro agora, mas construir uma frente ampla com setores da classe dominante e partidos de direita para as eleições de 2022. 

 

A aproximação com a burguesia que Lula deseja

 

Hoje, a burguesia brasileira não está fechada com o governo Bolsonaro. Sobretudo seus discursos pelo fechamento do regime não têm apoio dos principais setores da burguesia no momento. Porém, há uma grande unidade em torno das políticas de retirada de direitos da classe trabalhadora e da destruição dos serviços públicos. É dessa mesma burguesia, que, na prática, sustenta o governo da extrema direita, que Lula quer se aproximar. Os sinais são muitos e não convocar os protestos unitários contra Bolsonaro, muito menos estar presente neles, é parte dessa estratégia de construir uma frente para governar com a classe dominante. Lula precisa assumir um tom “moderado”, que “dialogue” com os especuladores do mercado financeiro e o conjunto da patronal.

Um dos fatos recentes mais comentados e lamentáveis dessa política foi a carta de Lula na revista Time. Vejamos as palavras do ex-presidente: “Em um mundo onde bilionários queimam fortunas em aventuras espaciais e iates, Luiza se dedica a um tipo diferente de odisseia. Ela assumiu o desafio de construir um gigante comercial e ao mesmo tempo construir um Brasil melhor” https://revistaforum.com.br/noticias/luiza-trajano-elogia-texto-de-lula-sobre-ela-na-time-muito-bem-escrito/. Luiza Trajano é nada menos que uma das pessoas mais ricas do país, que construiu sua fortuna pagando salários de miséria aos trabalhadores das lojas Magazine Luiza. É só vermos a situação da categoria comerciária, que vive com baixos salários e jornadas extenuantes de trabalho, que conseguiremos explicações de como Luiza Trajano construiu sua fortuna. Não à toa, foi uma das maiores defensoras das Reformas Trabalhista e da Previdência e agora defende a privatização dos Correios. Lula, obviamente, sabe dessas posições, porém, a partir dos elogios à chefe da Magazine Luiza, o ex-presidente acena não somente a ela, mas ao conjunto da classe dominante.

 

Reunião com líderes do MDB 

 

Não é apenas aos burgueses de “carne e osso” que Lula acena para uma aliança. É também aos líderes políticos que há décadas representam fielmente os interesses da classe dominante no parlamento e nos governos.

No dia 6 de outubro, Lula jantou com parlamentares do MDB, em um encontro cujo anfitrião foi nada menos que Eunício Oliveira (MDB-CE), ex-senador que votou a favor e participou da articulação do impeachment contra Dilma (https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2021/10/4953915-de-olho-nas-eleicoes-de-2022-lula-janta-com-parlamentares-do-mdb-em-brasilia.html). Esses mesmos que o PT chamou de “golpistas” há poucos anos, são novamente aliados na construção de um projeto para governar o Brasil.

 

A esquerda não deve se alinhar ao projeto de Lula com a burguesia

 

Nós, da CST-PSOL, temos defendido há muito tempo que o projeto de Lula não pode ser abraçado pela esquerda socialista no país. Chamar Lula aos atos contra Bolsonaro e buscar uma unidade de ação para derrotar nas ruas o governo é completamente diferente de defender o projeto de conciliação com a classe capitalista que Lula quer encabeçar.

Dentro do PSOL, esse debate praticamente dividiu o partido ao meio, com 44% dos delegados do último Congresso defendendo que o partido devia ter, desde já, um nome para as eleições de 2022, rejeitando a possibilidade de uma aliança eleitoral com o PT desde o primeiro turno. Infelizmente, essa proposta foi derrotada, e a direção majoritária, que há anos busca fazer do PSOL uma “ala esquerda” do lulismo, se impôs. Essa batalha segue em curso e até a Conferência Eleitoral, que ocorrerá em abril de 2022, discutiremos a necessidade do PSOL se apresentar com cara própria em outubro do ano que vem.

Junto a isso, saudamos as iniciativas que estão em curso nesse sentido, como o “Polo Socialista e Revolucionário”, impulsionado pelo PSTU (ver pág. 10), e também a resolução da frente Povo na Rua, que se definiu contra a política de Frente Ampla com a burguesia e contou com o apoio de importantes organizações, como MES/PSOL, UP e PCB. Unificar em um Polo ou Frente todos que estamos à esquerda do campo lulista, que se colocam contra esse projeto de conciliação de classes, será uma das principais tarefas do próximo período.

 

 

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