FAZER DESTE 20 DE NOVEMBRO UM DIA DE LUTA CONTRA O RACISMO E PELO FORA BOLSONARO!

 

 

Luiz Eduardo Rodrigues, CST Rio Grande do Sul

Nas últimas semanas acompanhamos alguns fatos contraditórios. Ao mesmo tempo em que comemoramos, no dia 14/10, a condenação de oito dos doze militares do Exército envolvidos nos assassinatos do músico Evaldo Rosa e do catador Luciano Macedo em abril de 2019, e no dia 15/10 a denúncia contra dois policiais civis pela morte de uma das 28 vítimas da Chacina do Jacarezinho de maio deste ano, investigações mostraram que a rede de lojas Zara, em cuja filial de Fortaleza a delegada negra Ana Paula Barroso foi impedida de entrar há alguns dias atrás, supostamente porque estava com  a máscara abaixada enquanto tomava sorvete – possui um “código de discriminação”, que orienta os seus trabalhadores a seguir pessoas consideradas “suspeitas” pelas unidades de suas lojas, sobretudo pessoas negras e vestidas de maneira mais simples. Já no dia 20/10, Gabriel Hoytil Araújo, jovem negro e trabalhador de apenas 19 anos, foi assassinado por homens da Polícia Civil, no Morro do Piolho, em São Paulo. A versão oficial difundida pela Polícia não foge ao clichê do roteiro que tende a acompanhar as justificativas do Estado sempre que crimes como esse ganham alguma repercussão: teriam reagido a uma ameaça de Gabriel que, segundo os policiais, estaria armado com um revólver e traficando. No relato das testemunhas, a arma se transforma em uma marmita, que, segundo a mãe, Gabriel sequer teria chegado a comer, enquanto tirava um tempo para o almoço entre as vendas de garrafas de água mineral nas sinaleiras da cidade.

Todos esses casos expressam uma realidade que não pode ser perdida de vista: embora alcancemos vitórias importantes, como o reconhecimento da responsabilidade do Estado e dos seus agentes em relação à perseguição e ao extermínio da população preta e pobre do país, e a responsabilização de empresas capitalistas que reproduzem a ideologia racista através do assédio e a discriminação a negras e negros (como também se expressou de maneira trágica no caso do assassinato de João Alberto no Carrefour de Porto Alegre em novembro do ano passado ou no episódio da tortura e assassinato de Yan e Bruno Barros no Atakarejo em Salvador pelo furto de um pedaço de carne), o fato é que o racismo segue fazendo um incontável número de vítimas anônimas todos os dias no Brasil.

Como provou a rebelião antirracista do ano passado, após o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos, e as importantes manifestações dirigidas pelo Movimento Negro aqui no país, exigindo justiça para João Alberto, pelas vítimas do Jacarezinho, Kathlen, entre outros casos, somente a mobilização nas ruas é capaz de arrancar alguma justiça e de garantir a responsabilização dos culpados. Ainda assim, seguimos sendo vítimas de outro tipo de extermínio, igualmente racista, que é fruto direto da política econômica ultraliberal e antipopular do governo Bolsonaro e de seu Ministro da Economia Paulo Guedes. A alta no preço dos alimentos, dos combustíveis, do gás de cozinha, e o desemprego e a informalidade que não param de aumentar, são uma receita perfeita para produzir cada vez mais mortos pela fome e pelo apetite desmedido de lucro da burguesia e de seus agentes no Governo, que lucram bilhões em paraísos fiscais no exterior enquanto o povo luta para sobrevier a um inferno diário aqui dentro. Por isso, é fundamental unir as demandas por justiça pelas vítimas da violência racista, pelo fim da impunidade aos crimes cometidos pelas polícias e Exército nas favelas e comunidades, contra o genocídio do povo negro, com a luta geral pelo Fora Bolsonaro e pela derrota dessa política criminosa. O próximo dia 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, deve ser parte desse processo.

VIVA ZUMBI!

Há 50 anos, na noite de 20 de novembro de 1971, os membros do recém-criado Grupo Palmares de Porto Alegre, reuniram-se no Clube Social Negro Marcílio Dias em um ato de protesto à celebração do 13 de maio como data-símbolo da emancipação do Povo Negro no Brasil. O dia para a realização da atividade não foi escolhido por acaso. Lembra a morte do líder negro Zumbi dos Palmares, assassinado pelas forças do Império Português durante a debela do Quilombo dos Palmares, no ano de 1695. A opção pelo 20 de novembro como data de celebração da identidade negra brasileira, sua luta pela libertação (ao invés do 13 de maio), e com ela a recordação do legado de figuras como Zumbi, Dandara, entre outras que surgiram ao longo dos anos, significa a reivindicação dessa herança de combatividade contra a violência do Estado e da burguesia, em suas diversas expressões. Como nos mostrou o sociólogo negro Clóvis Moura, os Quilombos foram uma das mais importantes ferramentas de resistência e de luta da negritude contra o sistema escravista, e uma forma de organização que se contrapunha à sociedade colonial da época, compondo uma rede que agregava tanto negras e negros escravizados em fuga, quanto libertos e mesmo indígenas e brancos pobres e marginalizados.

“Livres do açoite da senzala, presos na miséria da favela”

A abolição da escravidão, sem dúvida, foi uma vitória fundamental do povo negro, que não deve ser diminuída. Porém, o que se seguiu imediatamente após a assinatura da “Lei Áurea” foi a exclusão dessa população dos postos de trabalho e, mais tarde, das próprias cidades, sendo praticamente escorraçada para zonas precárias que hoje constituem as favelas em grandes cidades como o Rio de Janeiro, carentes durante muito tempo de qualquer assistência básica e alvo preferido da violência do Estado. Mais do que servir como mero objeto de estudo histórico, portanto, o legado de Zumbi, Dandara e tantas outras lideranças devem inspirar as lutas atuais contra o genocídio do povo negro e o regime de exploração do capitalismo. A unidade entre toda a classe trabalhadora e os oprimidos por esse sistema é fundamental para a construção de uma alternativa dos de baixo.

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