Entrevista com Zé Maria

Entrevista com Zé Maria, metalúrgico e presidente nacional do PSTU

 

(Como parte das reflexões sobre os rumos das esquerdas em meio às lutas contra Bolsonaro, nosso jornal entrevistou lideranças da esquerda do PSOL, da UP e do PSTU. Confira as entrevistas nas próximas páginas)

 

 

1-Qual a sua opinião sobre a frente ampla liderada por Lula/PT?

Lula e o PT estão tratando de construir uma aliança como a grande burguesia e a mesma corja de corruptos que povoam o Congresso Nacional. Quer apoio dessa burguesia e destes políticos para ganhar as eleições e governar com eles. O “detalhe” é que esse empresariado e os políticos com quem Lula está construindo esta aliança (Alckmin é apenas uma das expressões) são os mesmos que estiveram com Bolsonaro até agora, foram beneficiados por ele e deram sustentação ao seu governo. Um governo com esses setores, de conciliação de classes, evidentemente não vai reverter o quadro de destruição dos direitos dos trabalhadores gerado por Bolsonaro, pois os beneficiados por esta destruição são os mesmos com quem Lula quer governar. Pode não ser na mesma intensidade ou na mesma forma que faz Bolsonaro, mas vai seguir investindo contra os direitos dos trabalhadores, privatizando o patrimônio do país e destruindo a natureza, pois isso é necessário para atender os interesses dos políticos e grandes empresários que Lula quer reunir em sua Frente Ampla.

 

  • Qual o impacto dessa linha de colaboração de classes nas lutas sociais contra Bolsonaro?

O primeiro reflexo dessa política nas lutas da classe trabalhadora foi a negativa do PT e da direção das grandes centrais sindicais em trabalhar pela realização de uma greve geral no país em defesa da vida, do emprego e dos direitos da classe trabalhadora. O PT, seus satélites e a direção das grandes centrais sindicais raciocinam em função dos interesses daqueles com quem querem se unir – os empresários – e não em função dos interesses dos trabalhadores.

A segunda consequência é a operação que vem enterrando as manifestações pelo Fora Bolsonaro, cujo último episódio foi o esvaziamento das manifestações de 20N. Estes dirigentes decidiram empurrar tudo para as eleições do ano que vem, por um simples cálculo eleitoral – Bolsonaro é um candidato mais fácil de derrotar, raciocinam eles. E assim, ajudam a grande burguesia a desviar o descontentamento da população para o terreno das eleições. O massacre que o genocida vai continuar fazendo contra os direitos dos trabalhadores até lá não entra na conta deles.

 

  • O que a esquerda deve fazer?

Em primeiro lugar deve seguir buscando fortalecer os processos de luta, sejam as mobilizações pelo Fora Bolsonaro, sejam a diversas lutas, greves, ocupações e mobilizações que tem ocorrido pelo país. Mas não devemos nos abster de disputar política contra a burguesia e contra essas alternativas de conciliação de classes em nenhum terreno. E, da mesma forma que impulsionamos e participamos das lutas defendendo uma alternativa socialista para o país, devemos fazer o mesmo no terreno das eleições.

Na luta em defesa dos interesses dos trabalhadores – mobilização para colocar para Fora Bolsonaro, por exemplo – quanto mais ampla for a unidade melhor. No entanto, para a construção de alternativa política para governar o país, o critério que se impõe é outro, é a independência de classe. Por uma razão muito simples. Os interesses da classe trabalhadora, do povo pobre, das populações tradicionais, povos indígenas, das comunidades quilombolas, da preservação do meio ambiente, são opostos pelo vértice aos interesses dos banqueiros, grandes empresários e dos políticos corruptos que os representam.

Da mesma forma que nas lutas, devemos apresentar nas eleições uma alternativa de independência de classe, socialista e revolucionária, usar o processo eleitoral para fortalecer essas ideias no seio da classe trabalhadora, disputar a consciência e o voto dos trabalhadores contra toda a burguesia e o reformismo que concilia com ela.

 

  • Qual a sua opinião sobre a busca de um bloco ou frente das esquerdas socialistas e comunistas do PSOL, UP, PCB e PSTU?

O Manifesto que lançamos, propondo a constituição de um Polo Socialista e Revolucionário – no terreno das eleições – visa justamente juntar todos os setores que defendem uma alternativa de independência de classe, um programa socialista, para apresentarmos e defendermos esta alternativa no processo eleitoral, com a apresentação de candidaturas que defendam este programa. Então, sim, queremos construir um acordo eleitoral que potencialize a apresentação de uma alternativa socialista nas eleições de 2022.

Mas, pergunto: O PSOL defende uma alternativa socialista, de independência de classe para o país? O recente congresso nacional do partido aprovou posição em sentido oposto. Querem apoiar Lula e sua Frente que teimam em chamar “de esquerda”. Então não vemos como construir uma frente de esquerda e socialista com quem defende uma candidatura de conciliação de classes.

Mas, sim, sabemos que existem muitos setores, e inúmeros ativistas no PSOL, em outros partidos e mesmo independentes, que honestamente defendem a independência de classe e querem a apresentação de candidaturas que defendam um programa socialista nas eleições. Esses setores e ativistas serão muito bem-vindos no Polo e terão garantia para lançar suas próprias candidaturas (pois o PSTU tem plena disposição de colocar sua legalidade a serviço deste objetivo e de ceder sua legenda para tal), mantendo sua autonomia política – como aliás é regra no Polo para quaisquer de seus componentes.

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