O MES e o voto “nada crítico” na frente ampla

Rose Messias e Denis Melo, Coordenação da CST

Logo após a Conferência Eleitoral do PSOL, os camaradas do MES escreveram que seu voto em Lula seria um voto contra Bolsonaro, sem nenhum tipo de apoio ao programa da chapa Lula/Alckmin ou ao legado dos governos petistas: “Precisamos superar o lulopetismo pela esquerda, construindo uma alternativa independente e anticapitalista”; “o que dilui o PSOL é vender ao povo e ao movimento de massas a ilusão de que existe um acordo programático com o PT, que governou 13 anos sendo gerente dos interesses do capital em seus governos de conciliação de classe. Não venderemos essa ilusão”. (30/04/2022 movimentorevista.com.br/2022/04/nota-para-a-militancia-do-mes/). Diziam, portanto, que era um “voto crítico”.

Confrontando essa definição do MES com a realidade de suas campanhas eleitorais, fica explícito que não se trata de um voto crítico, pois não há qualquer crítica programática ou política. O que há, de fato, é um completo adesismo e apoio político do MES à frente ampla de Lula/Alckmin.

 As campanhas eleitorais do MES coladas a Lula e sem nenhuma crítica

Em outros textos, já alertávamos para a adesão sem críticas ao ato com Lula e Alckmin em Porto Alegre (algo que se repetiu no recente comício eleitoral da Frente Ampla na mesma cidade) e sobre a coligação eleitoral do PSOL com o PT no Rio Grande do Sul (ver cstpsol.com). Aqui daremos mais exemplos. As campanhas da companheira Vivi, deputada federal no PA, ou de Josemar, para deputado estadual no RJ, são a prova mais contundente, pois se trata de campanhas que poderiam ser de figuras públicas da ala majoritária do PSOL ou até mesmo do PT, pois estão intimamente ligadas à figura de Lula, são apresentadas como “candidaturas do Lula”. Isso está no principal símbolo da campanha de Vivi, com o “V” e o “L” feito com as mãos, em referência à Vivi-Lula. A adesão ao lulismo também está presente nas campanhas de Sâmia Bomfim, em SP, e até das companheiras Luciana Genro e Fernanda Melchionna, no RS, que aparecem com foto ao lado de Lula e mão fazendo o “L”. Tudo isso sem nenhuma crítica à ampliação das alianças da Frente Ampla, englobando setores do agronegócio assassino de sem terra, o vice, Alckmin, negociando o programa para direitos trabalhistas, a reforma administrativa e um longo etc. Desse modo, é muito difícil, para não dizer impossível, “superar a lulopetismo pela esquerda, construindo uma alternativa independente e anticapitalista”.

Apoio político à Frente Ampla nos panfletos

Nos materiais impressos da campanha de Josemar, vereador do MES em São Gonçalo/RJ e um de seus dirigentes nacionais, temos a foto de Lula e o seguinte texto: “Podemos vencer a fome, o desemprego e a violência. Ter saúde e educação de qualidade. Podemos erradicar o racismo e todo tipo de preconceito. No próximo dia 2 de outubro vote Lula 13”. No panfleto eleitoral do MES não só não há críticas como, na realidade, se expressa um apoio político, já que nesse material estão afirmando que, elegendo Lula, teremos educação e saúde de qualidade e o racismo será erradicado. Vejamos: foi no governo Lula que foi criada a EBSERH, abrindo as portas para a privatização dos hospitais universitários. Durante os governos do PT, foi criada a lei de drogas, utilizada para encarcerar jovens negros e periféricos, triplicando a população carcerária no país. No governo Dilma, foram criadas a Lei antiterrorismo e a Força Nacional de Segurança, abrindo margem para que as Forças Armadas ocupassem as favelas do RJ, como foi a ocupação da Maré e a operação do Exército e da Polícia no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, em 2017, causando a chacina de sete jovens, na cidade onde Josemar é vereador. Com essa linha, o MES está vendendo ao “movimento de massas a ilusão de que existe um acordo programático com o PT, que governou 13 anos sendo gerente dos interesses do capital”.

Cabos eleitorais pagos e 200 mil reais da REDE na campanha do MES no RJ

A campanha do Josemar, parlamentar do MES, além de dar apoio político à Frente Ampla, recebeu 200 mil reais do partido REDE Sustentabilidade, um partido burguês, financiado pelo Itaú. Não se tratou de dobrada eleitoral; foi dinheiro vindo direto da REDE para a conta eleitoral de Josemar. É uma campanha onde vemos pessoas pagas distribuindo panfletos, algo que, infelizmente, se tornou comum na campanha do PSOL fluminense, contrariando toda a história do partido, que antes se orgulhava de fazer uma campanha militante com o lema “tô na rua por ideal, não recebo um real”. Na prestação de contas dessa campanha, pode-se verificar esse valor depositado pela REDE, assim como a longa lista de cabos eleitorais pagos.

É possível dar o voto critico sem dar apoio político

A CST, em 2018, chamou a votar criticamente em Haddad/PT no segundo turno, contra Bolsonaro. Mas nosso voto jamais significou apoio político à chapa do PT e criticamos explicitamente o projeto do PT e seus governos (ver http://cstpsol.com/home/index.php/2018/10/17/dia-20-10-ocupar-as-ruas-elenao-derrotar-a-extrema-direita-do-bolsonaro-mourao-nas-ruas-e-nas-urnas/). Seria possível que os camaradas do MES fizessem uma campanha crítica de verdade, sem semear ilusões na traição de classe de Lula e do PT. Porém, escolheram fazer uma campanha sem nenhuma crítica, porque cedem ao peso eleitoral da Frente Ampla e não querem se chocar contra essa avalanche de votos lulistas para não correrem o risco de perder votos.

Nossa corrente foi expulsa do PT, junto ao camarada Babá, por denunciar a traição de classe e a conversão do PT à ordem, sua degeneração corrupta, o enriquecimento de seus dirigentes, a aplicação das reformas orientadas pelo FMI, as alianças com corruptos e reacionários. Por isso, nós, da CST, decidimos por manter nossa coerência e não capitular à aliança com os patrões; somos parte da campanha, no 1° turno, de Vera Lúcia presidenta e dos e das candidatas do Polo Socialista Revolucionário.

Construir um polo independente, anticapitalista e socialista só é possível com diferenciação em relação a essas direções traidoras e fortalecendo nas lutas uma política que não concilie com nossos inimigos de classe, uma tarefa que exige urgência. Uma movimentação pela esquerda de parte do MES ajudaria a construir uma alternativa independente, aproveitando para isso o 1º turno das eleições. Do contrário, ao seguir a linha atual na campanha da Frente Ampla de Lula/Alckmin, ajudam a semear ilusões e apoio para o campo burguês da Frente Popular, assim como fortalecem a política reformista majoritária do PSOL. Apelamos a que os camaradas do MES reflitam, revejam as ações eleitorais de seus parlamentares e mudem de posição.

(Publicado na edição 159 do Jornal Combate Socialista)


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