Sobre Fernando Holiday e o debate da representatividade

Diego Vitello – Coordenação Nacional CST-PSOL
Priscila Guedes – Diretora DCE da USP e militante da CST-PSOL

Vivemos um importante ascenso da luta dos oprimidos em nível nacional e internacional. O movimento negro se organiza em defesa das cotas nas universidades e contra a violência policial. Ganhou grande repercussão o movimento Black Lives Matter (Vidas negras importam), que tomou os EUA com passeatas gigantescas do povo negro nos últimos anos. As mulheres, por sua vez, realizaram grandes atos em defesa da legalização do aborto, repudiando a cultura do estupro e o machismo. Foram também a ponta de lança do “Fora Cunha”. Coletivos feministas surgem em escolas e universidades. Na Polônia, fizeram uma greve geral de mulheres contra uma lei que proibia o direito ao aborto. E venceram, derrubando a lei. Na Argentina, a campanha #niunaamenos reúne milhares contra os feminicídios. A luta LGBT também ganha visibilidade, com coletivos surgindo em escolas e universidades, combinado com a luta contra a lgbtfobia e os crimes de ódio contra os Lgbts, e pelo direito ao uso do nome social por pessoas trans.
Isso tudo sem dúvidas é muito positivo, pois estamos falando aqui dos setores mais precarizados da classe trabalhadora, sem os quais é completamente impossível pensar uma estratégia de mudança radical da sociedade, portanto, sua luta fortalece globalmente a luta da nossa classe. Em meio a esse ascenso, a direita que se organiza no MBL busca desarticular e enfraquecer a luta dos setores oprimidos.

Foi eleito nas eleições passadas, Fernando Holiday, um vereador jovem, negro, lgbt, que veio da periferia. Porém, ao ser um mandato de direita, obviamente já é um inimigo frontal das conquistas dos negros, dos lgbt’s e da população periférica. Por exemplo, uma de suas propostas é o fim das cotas para negros nos concursos públicos municipais. Outra, o fim do feriado do dia da Consciência Negra. Ou seja, o fato dele ser negro e gay não significa para nada que fará um mandato em defesa dos setores oprimidos. No seu caso, se trata exatamente do contrário.

Com esse texto queremos, a partir desse exemplo de Holiday, colocar algumas de nossas posições no debate sobre a “representatividade” existente hoje no seio da esquerda e que tem muito peso nas universidades.

Uma raiz desse debate: Pós-modernismo x Marxismo

O debate da representatividade de colocar as opressões específicas acima e por fora do critério de classe, tem sua raiz no pensamento pós-moderno. Uma das premissas básicas do pós-modernismo é a negação da totalidade. A sociedade contemporânea estaria cada vez mais dividida, parcializada, e para entender qualquer fenômeno é preciso estuda-lo à parte, no “micro” e não no “macro”. A complexificação da sociedade atual só pode ser explicada dessa forma pelos pós-modernos. A totalidade já não teria mais capacidade de explicar nada. As lutas sociais também estariam nesse contexto. Sendo assim, os negros devem lutar apenas pelos negros, as LGBT’s pelas LGBT’s, as mulheres pelas mulheres e assim por diante. Cada setor específico com uma pauta específica e nada mais. A perspectiva de uma mudança na totalidade, de sistema, foi jogada fora completamente pelos pós-modernos. Assim sendo, negam que a luta entre as classes sociais siga sendo o motor da história e inclusive a possibilidade de superação da sociedade capitalista.

Nesse sentido, o pós-modernismo é uma das teorias que se contrapõe ao marxismo. Para o marxismo, a busca da explicação de determinado fenômeno é vinculada imprescindivelmente à totalidade na qual ele está inserido. Para explicar as opressões hoje é preciso inseri-las no modo como está organizada a produção na nossa sociedade atual, capitalista. O capitalismo se utiliza das opressões para superexplorar os trabalhadores. É isso que explica a diferença salarial entre homens e mulheres e entre brancos e negros.

As opressões da forma como conhecemos hoje, são produzidas e reproduzidas na sociedade capitalista. Portanto, para os marxistas, não é possível superar as opressões sem lutar para derrotar esse sistema. Podemos conquistar avanços nas nossas pautas, mas enquanto existir capitalismo vai seguir existindo machismo, racismo, lgbtfobia, etc. Dessa forma, a luta dos negros, LGBT’s, mulheres, e todos os setores oprimidos, deve assumir uma perspectiva anti-capitalista, ou seja, estar vinculada a luta da classe trabalhadora pela sua emancipação. Ou lutamos contra as opressões as inserindo na luta contra o capitalismo ou estamos fadados ao fracasso na busca da emancipação dos oprimidos.

Essas visões, pós-moderna e marxista, são antagônicas, e não complementares. Nós marxistas, lutamos política e ideologicamente contra a visão pós-moderna que desvincula a luta dos oprimidos de uma perspectiva de classe. Unidade na ação e disputa do programa. Obviamente que as disputas e divergências existentes em torno do programa para a luta dos oprimidos não significam deixar de lado as possibilidades de unidade na ação com setores políticos que não tem um programa anti-capitalista. Por exemplo, a possibilidade de marchas em comum em defesa da legalização do aborto, ou pelo Fora Cunha!. Diversos tipos de pautas democráticas poderíamos citar. Direitos humanos para os LGBT’s, fim da política de extermínio da população negra pelos governos e a polícia. Nesse sentido, a CST se orgulha de impulsionar e participar em todas estas lutas.

A questão de fundo é que ao lado unidade na ação, que sem dúvidas fortalece as lutas que temos, deve ser levada uma disputa programática. Devemos combater politicamente aqueles que hoje colocam o tema da representatividade acima da questão de classe, colocando sempre a necessária vinculação da luta dos oprimidos à luta da classe trabalhadora contra o capitalismo.

Representatividade sem um programa de esquerda é uma armadilha

Amplos setores de esquerda difundem a tese da representatividade alijada do programa, em maior ou menor grau, ou seja, que basta ser negro para falar em defesa dos negros, que basta ser mulher para defender as mulheres, e assim por diante. Ou então que somente os negros podem defender a emancipação dos negros, as mulheres a emancipação das mulheres e assim por diante. Alguns chamam isso de “lugar de fala”. Ou seja, cada setor fala por si. Ninguém “de fora” pode opinar. De acordo com essa lógica, que não temos acordo, não existe mais possibilidade da classe trabalhadora falar enquanto tal e vincular a sua luta a dos setores oprimidos. Em nossa opinião, esse é o suprassumo da lógica pós-moderna que divide a luta dos oprimidos e a aparta da luta de classes. Dito isso, não tiramos a importância do protagonismo de cada setor oprimido de “sua” luta, porém o que negamos é que a saída seja o isolamento de cada setor e sobretudo sua desvinculação com a luta da classe trabalhadora.

Holiday é um grande exemplo de que não basta ser negro para estar ao lado dos negros. Além disso, dizemos claramente que qualquer trabalhadora e trabalhador, jovem, seja de qual cor for, não somente pode o criticar, como é seu dever fazê-lo. Os que defendemos as lutas dos trabalhadores e dos setores oprimidos somos oposição frontal ao seu mandato e a sua política.

De nossa parte queremos ser categóricos, a representatividade que não está vinculada a um programa emancipatório é uma armadilha para a luta dos oprimidos e da classe trabalhadora. Por essa razão, devemos combater o seu discurso. Ele não nos serve. Serve a políticos como Fernando Holiday e ao próprio MBL e não à esquerda.

Um exemplo que temos disso é a lógica de que é preciso mais representatividade dos setores oprimidos nos parlamentos brasileiros. Sem dúvidas, acreditamos que isso é importante, mas quando vinculado a um programa de esquerda. Não caímos na armadilha de que para defender a luta dos negros basta ser negro. Não basta. É preciso um programa de esquerda. Senão, por essa lógica infelizmente muito difundida hoje em dia, o mandato de Holiday seria um avanço para a luta do povo negro. Na nossa opinião, o seu mandato é um retrocesso para essa luta.

O nosso critério de classe à luz de alguns exemplos

Em nossa opinião, o critério de classe é imprescindível na política marxista, de esquerda. Por isso nós, marxistas revolucionários, estamos contra Holiday. Mas não somente ele.

Temos outro exemplo recente no Brasil onde opinamos que, ao perder esse critério, a ampla maioria da esquerda cometeu uma capitulação grosseira. Nos referimos à defesa do mandato de Dilma Rousseff no governo. Dilma vinha atacando frontalmente as mulheres e homens trabalhadores com seu ajuste fiscal. Fez acordos com a bancada Evangélica para não legalizar o aborto e vetar o kit anti-homofobia nas escolas. Ordenou o exército para ocupar favelas no Rio de Janeiro aprofundando a repressão policial contra o povo negro. Fica evidente que a marca de seu governo foi de ataque aos setores oprimidos e ao conjunto da classe trabalhadora.

Porém, os que perderam sua bússola de classe e deixaram o marxismo como uma “boa teoria” que servia mais no passado que no presente, apresentaram como um de seus “grandes” argumentos era que se tratava de uma mulher, então era preciso defendê-la! Que se tratava de um “golpe misógino”. Nosso critério era outro. Marxista, de classe. Defendíamos as mulheres trabalhadoras e todo o conjunto a nossa classe e não Dilma. Ela não sofreu o impeachment porque é mulher, mas porque um setor da burguesia entendeu que ela e o PT não conseguiam mais aplicar o ajuste, devido ao enorme rechaço popular ao seu governo. Obviamente que de nossa parte isso significava também uma oposição frontal a subida de Temer ao governo, primeiro porque era parte da gestão desastrosa de Dilma, mas também porque seu propósito era e é aprofundar o ajuste fiscal contra a classe trabalhadora que foi iniciado na época do PT. Em nossa opinião um processo similar ao de Dilma, aconteceu com Collor, que também sofreu um impeachment, apesar de ser homem e nunca na vida ter sido de esquerda, porém, não tinha mais condições políticas de seguir com os planos econômicos da burguesia, que nos momentos finais de seu governo apoiou ativamente a sua queda.

Esse critério de tergiversar as diferenças políticas para transformar tudo em um debate de opressões onde os interesses de classe são apagados, não é privilégio dos ex-governistas e dos que cederam às suas políticas de defesa de Dilma. O mesmo critério foi copiado por Kim Kataguiri, dirigente do MBL. Em sua coluna na Folha, em um artigo defendendo Holiday, foi claro se referindo à esquerda: “Se você discorda da ideologia deles, então você pode ser alvo de racismo, machismo e homofobia”. (Ódio a Holiday evidencia farsa do discurso em defesa das ‘minorias’, Kim Kataguiri na Folha de São Paulo em 11/10/16).

Outro exemplo que temos é o de Obama, primeiro presidente negro nos EUA. Obama foi eleito pelo Partido Democrata em 2008, com um discurso de mudança. Com a crise econômica, sua política foi de colocar trilhões de dólares nos cofres das grandes empresas e bancos. Enquanto isso, milhões de estadunidenses perdiam suas casas e empregos. Obviamente que os negros foram os mais prejudicados. Em 2014, segundo dados publicados pelo site El Pais, a taxa de pobreza entre os negros era de 28,1%, enquanto entre os brancos, 12%. A taxa de desemprego é de 11,4% para os negros e de 5,3% para os brancos. Ou seja, mesmo com Obama no governo, a situação de desigualdade entre negros e brancos nos EUA não se alterou. Esses dados sem dúvidas fortaleceram a violência policial contra os negros estadunidenses, que gerou uma importante e massiva resposta materializada no movimento Black Lives Matter. Obama fez um governo centralmente para as multinacionais estadunidenses, que se chocava com os interesses da classe trabalhadora em seu conjunto. Pela lógica da representatividade sem critério de classe, deveríamos defender o governo imperialista de Obama, ou então considerar o seu governo uma grande vitória do movimento negro. Para nós, que não perdemos nossa bússola de classe no meio das lutas políticas, se trata justamente do contrário. Obama fez mais um governo a serviço dos capitalistas da principal potência imperialista do mundo. A denúncia implacável do legado de seu governo segue sendo o papel dos marxistas revolucionários em nossa opinião.

Coerentes com o nosso critério, o aplicaremos também sobre nossa política frente ao mandato de Fernando Holiday. De nada serve ele ser negro, LGBT e ter sua origem na periferia se sua política vai na contramão dos interesses da classe trabalhadora e dos setores oprimidos. Seu mandato, assim como o MBL, são inimigos de classe nossos. Representam os interesses da burguesia. Portanto, não temos dúvidas de que a luta da classe trabalhadora, do movimento negro, das mulheres e dos LGBT’s é contra o seu mandato e sua política. Não há contradição nisso. Há apenas o desmoronamento das frágeis teorias que colocam representatividade acima da política que determinada pessoa defende.

Concluindo, opinamos que Holiday, assim como Dilma e Obama, está do outro lado da trincheira. Isso se dá porque o critério fundamental em uma política de esquerda revolucionária é de classe. Não é muito difícil entender nosso critério: se defende os interesses de nossa classe, está ao lado da luta dos oprimidos, está ao nosso lado. Se não defende, não está.

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