1917 | Jornadas de Julho: A irrupção das massas e a política bolchevique

 “Tomar o poder não bastava. Era preciso guardá-lo” Trotsky, LEON. A História da Revolução Russa

 

Por Diego Vitello – Metroviário e da Coordenação da CST – PSOL, São Paulo 

 

 A situação política se acelerava na Rússia. O regime nascido em Fevereiro se debatia em uma contradição de ferro causada pelo Poder Dual existente no país. De um lado o Governo Provisório, instável, cambaleante, mas com uma política categoricamente burguesa e pró-imperialista. Do outro, o poder dos sovietes, onde operários e camponeses buscavam defender seus interesses de classe. O Poder Dual não podia durar muito tempo. Uma hora teria que resolver-se. Ou para um lado, ou para o outro. Um dos principais eventos que marcaram estes meses de grande instabilidade política foram as “Jornadas de Julho”: manifestações espontâneas muito massivas que tomaram a cidade de Petrogrado, capital do país à época.

 “Muito mais que uma manifestação, muito menos que uma revolução”, nessa simples frase Lenin definia as Jornadas de Julho alguns dias depois delas terem ocorrido. Para além da manifestação de massas, do elevado espírito de combatividade do proletariado que permearam as manifestações dos dias 3 e 4 de julho de 1917, um dos debates que marcou as Jornadas de Julho foi a posição do partido bolchevique, que queremos debater no presente texto. Essas massivas manifestações foram uma prova de fogo para a política levada a cabo por Lenin e Trotsky. Nomes cuja influência nos meios operários avançava a cada dia.

 A situação da economia russa se deteriorava mês após mês. A classe operária sofria uma situação de crescimento da miséria e da fome. A inflação galopava, e o valor do Rublo caía bruscamente. A situação nas fábricas era de agitação. A segunda quinzena do mês de junho foi marcada por fortíssimas greves em algumas localidades.

Esses antecedentes breves prepararam o terreno para a irrupção de massas que houve em Julho no país.

 A situação das massas e a política inicial do partido bolchevique

 As massas vinham desde fevereiro lutando quase que ininterruptamente. Em momentos com mais força, em outros menos. Porém, a situação evoluía e a permanência da Rússia na guerra levava a classe operária e o campesinato a enormes privações. As vacilações do governo provisório, que mantinha uma política pró-capitalista e portanto mantinha a Rússia na guerra, irritavam os operários. Nos sovietes a situação começava a mudar. Os bolcheviques ganhavam influência por sua política intransigente de oposição ao governo de Frente-Popular que estava instaurado. A burguesia se dividia. No dia 2 de julho, quatro ministros do partido Cadete (o principal partido burguês no governo), entregam seus cargos e saem do governo, causando grande impacto político.

 Os bolcheviques sabiam que a situação das massas estava praticamente insuportável, mas procurava acumular força e desmascarar mais e mais os partidos menchevique e socialista-revolucionário, que se encontravam à frente do governo de Kerenski, mas também à frente dos sovietes.

 No decorrer dos dias de junho e julho, a palavra de ordem “Todo poder aos sovietes” ganhava força, aumentando a crise dos mencheviques e socialistas-revolucionários, que estavam à Frente do governo e dos sovietes. Porém, os bolcheviques, mesmo conhecendo de perto a situação da classe operária, aconselhavam esperar. Lenin colocava cuidadosamente no Pravda, “Nós compreendemos a amargura, compreendemos a efervescência dos operários de Petersburgo. Mas dizemos-lhes: camaradas, uma ação direta não seria racional por agora.”

 A irrupção de massas e a relocalização dos bolcheviques

 No dia 3 de Julho de 1917, manifestações espontâneas tomaram Petrogrado. Estima-se que cerca de 500 mil pessoas se manifestaram. Regimentos de soldados se levantando, manifestações operárias de armas em punho, davam o tom do dia na principal capital no país. Em todas as manifestações se espalhavam os cartazes e exigiam “todo o poder aos sovietes.”

 Frente a essa situação, os bolcheviques relocalizam sua política. Trotsky, no seu monumental “A História da Revolução Russa”, cita o que disse Kamenev, expondo categoricamente a política do partido frente ao movimento: “Não apelamos a qualquer manifestação, mas as massas populares saíram por sua própria iniciativa. E no momento que as massas saíram, nosso lugar é no meio delas. Nossa tarefa, agora, é dar ao movimento um carácter organizado.” E assim foi feito. No próprio dia 3 de julho os bolcheviques já publicam um manifesto convocando a manifestação do dia seguinte.

 De fato, essa relocalização dos bolcheviques frente à inevitabilidade das manifestações se provou correta, porque já no dia 4 de julho, segundo Trotsky relata: “a direção imediata do movimento passa definitivamente, a partir desse instante, para as mãos do comité peterburguês do partido”.  Foi uma relocalização importantíssima, já que as massas, desesperadas pela situação, buscavam apoio no único partido que combatia no seu campo político, o Bolchevique.

 Cessam as manifestações, começam as perseguições

 A partir do dia 5 de julho as manifestações já não tem caráter massivo e logo vão cessar. Dois dias que estremeceram a Rússia, mostraram um altíssimo grau de descontentamento popular e Não há dúvidas de que a vanguarda proletária havia tirado importantes conclusões das Jornadas de Julho. Uma delas era que é preciso preparar a tomada do poder, esperando amadurecer a situação.

A política da burguesia e da “esquerda” que estava no governo evidenciam um desespero completo. O medo que a classe dominante e os traidores que governavam ao seu lado tinham das ações de massa era brutal.

Porém, a política coerente do partido bolchevique vai ter um alto custo. O governo provisório, nascido da derrubada do Czar em Fevereiro, começa uma política de forte repressão. Jornais bolcheviques são fechados em todo país. Militantes são presos e perseguidos. Lenin volta à clandestinidade. Trotsky vai preso. A grande mentira para desencadear a perseguição, fomentada pela imprensa, era que os bolcheviques eram “agentes da Alemanha”.

 Por que os bolcheviques não tomaram o poder em Julho?

 Sem dúvidas esse é um dos principais debates que se fez acerca das Jornadas. A classe operária estava numa condição de vida insuportável sendo sacrificada pela política do governo provisório de manter a Rússia na guerra. Durante os dois dias mais de 500 mil pessoas se manifestaram, ainda que bastante concentradas na capital, Petrogrado. Além disso, haviam milhares de soldados que marchavam armados ao lado dos operários.

 Porém, o amadurecimento político do proletariado, e seu caminho em direção à política dos bolcheviques, ainda não estava completo. Ainda haviam ilusões de que, pela “pressão de baixo”, os mencheviques e os socialistas-revolucionários, ainda majoritários nos sovietes, poderiam adotar um curso à esquerda e se aproximar dos bolcheviques. Fora de Petrogrado, a influência dos bolcheviques ainda era bastante minoritária.  Trotsky define assim a situação: “O proletariado da capital que, na sua esmagadora maioria, já se tinha entregue aos bolcheviques, ainda não tinha cortado o cordão umbilical que o ligava aos conciliadores. Havia ainda bastantes ilusões nesse sentido que, pela palavra e por uma manifestação, podia-se chegar a tudo; que intimidando os mencheviques e os socialistas-revolucionários, poder-se-ia estimular a seguir uma política comum com os bolcheviques.” Ou seja, a ruptura com as direções traidoras expressas no partido menchevique e no socialista-revolucionário, ainda estava em curso, não tinha sido completa.

 A possibilidade de tomar o poder em Petrogrado era evidente para Trotsky, Lenin e muitos bolcheviques. Inclusive nas fileiras do partido surgiu uma ala que propunha a tomada imediata do poder. Porém, a avaliação dos principais dirigentes e da maioria do partido era de que, em que pese se podia realmente tomar o poder em Petrogrado, mantê-lo seria impossível. As coisas em Moscou (segunda principal cidade do país) não estavam no mesmo ritmo de Petrogrado. Nas províncias do interior menos ainda. Era preciso cautela, mas não perder de vista o objetivo final. Era preciso ganhar, o mais rápido possível, influência política onde ainda não se tinha, desmascarar por completo as direções traidoras, acelerando a ruptura das massas com sua política, e assim estaria pavimentado o caminho da tomada do poder pela via insurrecional.

 Nisso consistiu a essência da política bolchevique em Julho: acompanhar e alertar as massas, mesmo acreditando que as Jornadas foram precipitadas. Nem segui-las acriticamente, nem abandoná-las à própria sorte. Acompanhá-las com um claro objetivo de avançar na sua influência política e da ruptura que estava em curso com os partidos que encabeçavam a ampla maioria dos sovietes. Preparar solidamente a tomada do poder, para mantê-lo firmemente. Esse objetivo os bolcheviques não perderam de vista um minuto durante Julho, e a história, como provaram em outubro e nos anos subsequentes, novamente insistiu em lhes dar razão.

(publicado originalmente no jornal Combate Socialista, n°83, julho de 2017)


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