Os limites da entrevista de Boulos no Programa Roda Viva

Guilherme Boulos concedeu ontem uma entrevista ao programa Roda Viva. Muitos dirigentes e militantes do partido ficaram entusiasmados e satisfeitos, incluindo muitos companheiros que vinham tecendo corretas criticas à linha política que vem sendo aplicada por Boulos e a direção do PSOL, de proximidade com o lulopetismo. Gostaríamos com essa breve nota de colocar nossas primeiras impressões acerca da entrevista de Boulos, dialogando com o que consideramos progressivo e apontando os limites programáticos da  entrevista.

Em primeiro lugar, ressaltamos que a entrevista teve pontos positivos, foi a primeira vez que Boulos se colocou de fato como candidato, já que toda sua agenda, até então,  vinha sendo ao redor da defesa de Lula. Em segundo lugar, corretamente denunciou a grave crise social, política e econômica que o país vive e as medidas de ajuste de Temer como a reforma da previdência, denunciou o genocídio da juventude negra, dos povos quilombolas, defendeu as ocupações e o direito à moradia e pautas feministas como o direito ao aborto, que deve ser tratado como caso de saúde pública. Todas essas pautas importantes que devem ser parte de nosso programa.

No entanto, Boulos se limitou a defender, para acabar com as desigualdades sociais, com medidas como a Reforma Tributária Progressiva, a tributação de lucros e dividendos e a taxação das grandes fortunas. Ao não ir à raiz dos problemas, o dirigente do MTST se limita a políticas melhoristas, que não resolverão os graves problemas econômicos e sociais que vem sofrendo o povo trabalhador. Não poderia ser diferente, já que Boulos defende o programa Vamos. Como escreveu o companheiro Plinio: “Como modificar a orientação da política econômica sem colocar em questão o papel estratégico da Dívida Pública como centro nervoso da política econômica? A lista das omissões seria interminável. A Vamos fica na superfície da realidade. Ao ocultar as determinantes estruturais da miséria brasileira” […] a Vamos responde com uma versão recauchutada do “melhorismo” lulista. O que ontem resultou numa tragédia, hoje começa como farsa (PLINIO Jr. “Para Onde Vamos”? 29/01/2018)

O programa “melhorista” de Boulos não apresenta um real programa de ruptura, não é um programa anti- capitalista. Em nenhum momento Boulos colocou na ordem do dia a necessidade de suspender o pagamento da dívida pública, nem mesmo defendeu auditória da divida vetada pela ex-presidenta Dilma. Todos os anos, metade do orçamento do país, bilhões e mais bilhões de reais, são desviados para pagar os juros e amortizações da dívida pública, uma verdadeira sangria a serviço da farra do sistema financeiro. Sem romper com o mecanismo da divida pública, a maior política externa de estrangulamento que o imperialismo tem contra as economias emergentes, não vamos avançar em medidas concretas para os trabalhadores e o povo.

Ao ser questionado a respeito da primeira medida de impacto a ser aplicada, caso fosse eleito, Boulos se limita a propor um plebiscito para que o povo decidisse através de voto sobre a revogação das medidas do governo Temer, tendo, segundo Boulos, a Suíça como modelo de democracia. Como, por exemplo, resolver num plebiscito a Reforma Trabalhista, onde votaria todo mundo, patrões incluídos, sendo que é uma questão que afeta só aos trabalhadores. Boulos deve saber que as reformas e leis neoliberais já foram rejeitadas pelos trabalhadores.

Boulos em nenhum momento chama o povo a se mobilizar, apenas se limita a chamar a população a votar. Fala em plebiscito apenas em relação à revogação das contrarreformas de Temer, e esqueceu-se de dizer que é necessário também revogar as de FHC, Collor, Lula e Dilma. A começar por revogar a primeira reforma da previdência que foi aplicada pelo governo Lula em 2003, as MPs 664 e 665 aplicadas pela Dilma que tornam mais rigoroso o acesso da população a benefícios como seguro-desemprego e pensão por morte, prejudicando, sobretudo, as mulheres trabalhadoras.

Boulos, na entrevista, não apresentou um projeto de ruptura com a ordem econômica e social.

Em relação aos Bancos se limita a criticar os juros altos e inclusive afirmar que é nocivo para os empresários e para o povo. Como se ambos sofressem de forma igual o resultado da política de juros altos, um absurdo!. Não fala em estatização do sistema financeiro.  E afirma na entrevista que “não está aqui para demonizar os empresários que geram empregos”, buscando ser um candidato mais palatável ao empresariado, à medida que não fala, por exemplo, em reestatizar as empresas privatizadas e rever as concessões e vendas de ativos que o PT implementou durante os 13 anos em que esteve no governo. Não podemos esquecer, por exemplo, que em 2006, o governo Lula não só manteve os leilões da Petrobrás, como na oitava rodada limitou a quantidade a ser comprada pela Petrobrás. Enquanto Dilma foi quem fez o primeiro leilão do pré-sal, com a oferta da área de Libra. Não ouvimos uma palavra de Boulos a respeito disso. O presidente eleito pelo PSOL não pode titubear, tem que defender a revogação de todas as medidas contra os trabalhadores, de FHC, de Collor, de Lula, Dilma e de Temer, ou seja, de todos os governos que aplicaram um plano de ajuste.

Outro tema ausente foi o combate à corrupção, se limitando a defender Lula e seu direito a ser candidato. A corrupção não é um problema menor! Bilhões de dinheiro público necessários para saúde ou educação, por exemplo, foram roubados pelos canalhas que governam e governaram para seu benefício pessoal e/ou seus projetos político-partidários de reeleição, para poder preservar o famoso foro privilegiado, que significa a proteção da bandidagem política. Não defendeu a investigação, prisão e confisco de bens de todos os corruptos, independente da coloração partidária e nem mesmo a estatização de todas as empresas envolvidas nos esquemas da Lava Jato.

Mas um dos maiores equívocos, foi que Boulos não aponta como saída a mobilização, a luta e a greve e se limita a chamar plebiscitos e consultas, ou seja, chamará as pessoas a votar, sendo ausente a mobilização como a saída para resolver os problemas do povo trabalhador. Não fez nenhuma referência às lutas e greves em curso, como a dos trabalhadores da Renault de Curitiba, onde milhares de metalúrgicos cruzaram os braços e nem fez referência aos servidores municipais de São Paulo com 100 mil nas ruas que conseguiram derrotar a reforma da previdência do Prefeito licenciado Dória.

Neste sentido, Boulos desperdiçou uma oportunidade ímpar para fazer um chamado aos trabalhadores, ao povo, à juventude, às mulheres, a lutar contra o plano de ajuste e pelo Fora Temer, bandeira abandonada por Lula, pela CUT, pelo PT e pela maioria das direções das centrais. A lutar por aumento salarial, contra as demissões, as terceirizações, as privatizações. A lutar e apoiar as causas ambientalistas, contra a norueguesa Hydro/Alunorte no Pará que envenena as águas. E dizer: fora as Multinacionais predadoras!. A lutar em defesa da demarcação de terras indígenas; da reforma agrária, enquanto os jagunços, a mando dos fazendeiros, continuam assassinando lideranças.

Se a direção majoritária do PSOL e Boulos deram um passo em direção a que o partido tenha candidato, esse passo é absolutamente insuficiente.  Se Boulos segue candidato, não pode fazer declarações desastrosas como as que fez à BBC, onde evidenciou ser,  não um candidato do Partido Socialismo e Liberdade,  mas um torcedor de Lula e do PT. O PSOL sempre foi e continua sendo oposição de esquerda dos governos petistas, e nunca será um puxadinho do PT.

Por fim, fala em Socialismo, como sinônimo de “igualdade de oportunidade”, abstraindo o verdadeiro significado do Socialismo, defendido por  Marx e Lênin, que é a construção de uma sociedade sem explorados e nem exploradores, baseada na necessidade da classe trabalhadora tomar o poder, expropriar a burguesia e planificar a economia a serviço da necessidade e do desenvolvimento da humanidade.

8 de Maio de 2018

Coordenação da CST/PSOL

 

 

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