#EleNão um ano depois – retomar a luta das mulheres nas ruas

Há um ano o Brasil vivia um fato absolutamente inédito: às vésperas do 1º turno das eleições, ocorriam mobilizações massivas contra o principal candidato à presidência, que ocupava o 1º lugar nas pesquisas de intenção de voto com possibilidades de vencer no 1º turno. A indignação que se manifestou no grupo do Facebook “Mulheres contra Bolsonaro” foi organizada em plenárias amplas em várias cidades, com a participação de muitas ativistas feministas independentes e organizações políticas que, no dia 29 de setembro, ocupou as ruas com o grito #EleNão. Há um ano as mulheres brasileiras fizeram história.

Nossa mobilização foi determinante para impedir uma vitória de Bolsonaro ainda no 1º turno e para impulsionar o fenômeno do #ViraVoto durante o 2º, ainda que as direções das principais organizações dos movimentos feministas e partidos políticos não tenham apostado na disposição de luta das mulheres de seguir nas ruas. Mesmo que o movimento iniciado pelas mulheres durante as eleições de 2018 não tenha sido suficiente para derrotar Bolsonaro eleitoralmente, ele contribuiu para preparar a resistência contra o governo da extrema-direita desde o primeiro dia.

Um ano depois está ainda mais evidente que o alerta das mulheres estava correto. O candidato “anticorrupção” governa para proteger os esquemas de sua família, envolvida até mesmo com os assassinos da nossa companheira Marielle, crime que permanece impune, e encabeça um projeto de destruição dos direitos sociais e de ataques às liberdades democráticas que afeta com mais intensidade os setores oprimidos da classe trabalhadora. Além de manter seu discurso de ódio, em nove meses, o governo adotou medidas e condutas como a criação do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos com a liderança de Damares Alves, uma mulher antifeminista e ligada ao fundamentalismo religioso; o aumento da idade mínima das mulheres para aposentadoria, com a Reforma da Previdência que ainda tramita no Senado; e, recentemente, a suspensão do edital da ANCINE para a seleção de produções audiovisuais com a temática LGBT. Mas, sem dúvida, a consequência mais alarmante é o aumento dos casos de feminicídio.

Os ataques de Bolsonaro às mulheres e ao feminismo, assim como em outros governos de extrema-direita, representam uma reação à nova onda feminista que tem ocupado as ruas em diversos países e ampliado a consciência sobre a opressão patriarcal. Nesse contexto, o discurso do presidente contribui para resgatar a legitimidade de práticas machistas, desde o assédio até o estupro e o feminicídio. Se apenas o discurso de Bolsonaro foi suficiente para elevar o feminicídio, certamente a situação se agravará com o desmonte institucional das políticas públicas de combate à violência contra a mulher, que nunca tiveram prioridade financeira no Brasil, e políticas como a ampliação do porte de armas, em um país onde a maioria dos casos de feminicídio ocorre com o uso de armas de fogo.

O caminho para defender nossas vidas e derrotar o governo Bolsonaro é aquele que as mulheres têm apontado desde o início da Primavera Feminista, a mobilização nas ruas, como fizemos há um ano no #EleNão e no #8M desse ano. Os direitos das mulheres não podem esperar, com a expectativa de “eleger mais mulheres” nas próximas eleições, como apontam algumas lideranças feministas. Nossa luta é agora. Por isso, nós, mulheres da CST-PSOL, chamamos às mulheres estudantes e trabalhadoras independentes e organizadas em coletivos feministas, partidos e entidades estudantis e sindicais a recolocar o #EleNão nas ruas no final de setembro. Imediatamente, é preciso realizar plenárias regionais e locais para organizar essa mobilização juntamente com o Dia Latino-Americano e Caribenho pela Descriminalização do Aborto, e preparar um espaço nacional para organizar um plano de lutas feministas contra o governo Bolsonaro, pelo fim dos feminicídios e da violência contra a mulher e por justiça para Marielle.

Mariana Nolte – CST/PSOL e Professora de Sociologia Rede Estadual – RJ

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