Por uma frente de países devedores

por José Castillo, economista e militante
de Izquierda Socialista, seção argentina da UIT-QI *
Tradução Caio Sepúlveda

Vários países africanos propuseram o cancelamento total de sua dívida externa e conformaram uma frente de países devedores para levar adiante essa pauta. Três representantes do continente se colocaram à frente da iniciativa, o primeiro ministro etíope e vencedor do Prêmio Nobel da Paz, Abiy Ahmed; O chefe de Estado de Senegal, Macky Sall e o presidente da África do Sul e da União Africana, Cyril Ramaphosa.

É a resposta a certas recomendações demagógicas de parte dos funcionários do FMI e do Banco Mundial, que falaram de “reduzir prazos e montantes” da absolutamente impagável dívida externa africana, onde cada país tem que destinar atualmente somas entre 15% e 30% do total de seus recursos para esse fim. Frente a essas declarações, a posição dos países africanos foi clara: pedem o cancelamento pleno de todas as dívidas.

A frente de países devedores africanos é um exemplo do que nós temos que fazer. Independente de como termine esse chamado. Assim se responde a uma pergunta que muitos companheiros fazem com frequência: é possível deixar de pagar a dívida pública e romper com o FMI? Como enfrentar qualquer represália do establishment econômico e político do imperialismo?

Sempre respondemos que existem vários exemplos de países que deixaram de pagar suas dívidas e que qualquer “represália” é muito menor do que o custo de seguir pagando com a fome do povo trabalhador.

Mas a isso também agregamos que a suspensão do pagamento da dívida externa e a ruptura com os organismos financeiros internacionais devem vir acompanhadas do chamado ao conjunto dos países vítimas desse roubo para conformar uma grande frente de países devedores, que se oponha e enfrente de conjunto os credores parasitas e seus governos.

Em particular, sempre sustentamos que esse chamado era fundamental na América Latina, já que todos os países da região sofrem com a dívida pública. Se deixarmos de pagá-la e unirmos todos os nossos recursos, somos invencíveis frente a qualquer represália dos credores. Com os alimentos da Argentina e do Uruguai, os minérios do Chile e da Bolívia, o petróleo da Venezuela e do Equador, o poder industrial do Brasil, para citar somente alguns exemplos, seríamos capazes de resistir a qualquer sanção imposta pelo imperialismo. Algo similar ao que hoje estão propondo os países africanos.

Alberto Fernández, por um lado repete que “não pode pagar”, mas ao mesmo tempo segue insistindo na negociação para “evitar cair em default”. Aqui está a saída: deixar agora mesmo de pagar toda a dívida externa e chamar uma frente de países devedores para enfrentar de conjunto os abutres e seus governos.


* UIT-QI – Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores – Quarta Internacional.
Texto publicado originalmente no “El Socialista” N° 458, publicação do Izquierda Socialista.

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