A situação das LGBTs na pandemia

Por Matheus Shneider, professor de geografia e Diretor do Núcleo 39 do CPERS. Originalmente publicado no Combate Socialista, versão digital n°5.


A pandemia do novo coronavírus escancarou as desigualdades presentes na sociedade. Estas se reforçam a partir das medidas do governo Bolsonaro, dos governadores e dos prefeitos, que, atendendo aos interesses dos grandes empresários, querem descarregar todo o peso da crise nas costas da população pobre e trabalhadora.

A crise, que já vinha de antes, se acentua e leva ao aumento do desemprego e à piora nas condições de vida das populações oprimidas (entre elas, a população LGBT). É notório que amplas parcelas da classe trabalhadora do nosso país não estão tendo direito ao isolamento social, pois precisam se sujeitar à pressão dos patrões ou sair em busca de fontes de renda. Porém, também é verdade que a casa, que deveria ser o lugar mais seguro, não o é para boa parte da população LGBT mais jovem, que sofre com a opressão de seus familiares, o medo da expulsão e a falta de alternativas de sustento.

Uma pesquisa realizada pelo coletivo #VoteLGBT e por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais e Unicamp levantou que há três pontos que impactam de forma intensa a vida de pessoas LGBTs durante a pandemia: piora na saúde mental, afastamento da rede de apoio e falta de fonte de renda.

Em linhas gerais, os resultados mostram a população LGBT+ em um nível de vulnerabilidade alta, conforme as dimensões de renda e trabalho, exposição ao risco da COVID-19 e saúde. Três grupos – transexuais, pretos/pardos e indígenas e bissexuais – por sua vez, aparecem na faixa considerada grave.

Um dos resultados mostra que o diagnóstico prévio de depressão entre o público é quatro vezes maior em relação ao restante da população. Das pessoas entrevistadas, 28% já tinham sido diagnosticadas com depressão antes da pandemia. Esse número é quatro vezes maior do que o registrado no restante da população, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS). Além disso, 47% foram classificadas com o risco de depressão no nível mais severo. Problemas no convívio familiar foram citados como maior dificuldade durante o isolamento social por 10% dos entrevistados.

Já o índice de desemprego atingiu 21,6%, quase o dobro do registrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em abril deste ano, no restante da população. Uma a cada quatro pessoas perdeu o emprego em função da pandemia e 30% das pessoas desempregadas já estão sem trabalho há um ano ou mais.

Medidas como a suspensão da distribuição de kits de autoteste de HIV (que vinha sendo feita no SUS), desvalorização das políticas de prevenção às ISTs e retirada de peças publicitárias que mostravam a diversidade sexual escancaram o viés preconceituoso de Bolsonaro. Porém, sabemos que os ataques não começaram com este governo.

É necessário fazer um balanço dos 13 anos de governos petistas, que em conluio com as bancadas fundamentalistas no Congresso Nacional, vetaram o kit “Escola Sem Homofobia” e mantiveram o Brasil como um dos campeões mundiais em crimes motivados pela LGBTfobia. Conforme dados obtidos pelo serviço do disque 100 (um canal criado para receber informações sobre violações aos direitos humanos), foram registradas 1.871 acusações de violência psicológica sofridas por LGBTs em 2018, número maior apenas do que em 2011, quando 1.647 pessoas fizeram denúncias.

Nesse contexto, exigimos quarentena geral já, sem demissões, sem discriminação nem crimes de ódio. Defendemos a criação de um fundo de emergência, a partir do não pagamento da dívida pública e da taxação das grandes fortunas, para garantir renda mínima a todos. É preciso que os imóveis que não estão cumprindo sua função social e a rede hoteleira abriguem LGBTs sem-teto e vítimas de violência (durante e após a pandemia).

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