HISTÓRIA | A “marcha de los cuatro suyos” derrotou à ditadura Fujimorista. Só a mobilização derrotará ao governo e suas políticas neoliberais

Raphael E., Unios Perú

Tradução: Emanuelle Braga


A 20 anos da “marcha de los cuatro suyos”, imenso movimento popular que se forjou na luta contra a ditadura fujimorista, é oportuno fazer um balanço histórico e reivindicar a mobilização permanente como via para derrotar o governo neoliberal e substituí-lo por um governo dos trabalhadores.

Do mal menor ao pior dos males

Fujimori chega à presidência em 1990, apoiado pela esquerda reformista e o APRA[1]. Uma vez no governo, fez tudo ao contrário do que prometeu na campanha e o suposto “mal menor” se tornou logo o pior dos males. Em 1992, Fujimori provoca o autogolpe, fecha o congresso e modifica a Constituição de 1979, com o único objetivo de avançar a contrarreforma neoliberal que, energicamente, seus antecessores Bermúdez, Belaúnde e García haviam começado.

Esses se encarregaram de debilitar e quebrar a incipiente indústria nacional, nos conduzindo a uma profunda crise econômica que Fujimori aproveitou, para avançar com a onda de privatizações, nos fazendo retornar a um fracassado modelo econômico do início do século XX: de acumulação capitalista sustentado numa economia extrativista, com mão de obra barata e sem direitos.

Fujimori foge do país e renuncia, via fax, à presidência (19/11/2000), meses depois de consolidar sua fraudulenta reeleição em maio do mesmo ano. Nesse momento, parecia chegar o fim do projeto neoliberal, à luz de um movimento de massas em ascenso que questionou tudo: governo ditatorial, modelo econômico e à constituição fujimorista que os amparava. Tal movimento deu corpo ao que hoje se conhece como ‘la Marcha de los 4 suyos’ (28 e 29 de julho de 2000).

A manobra do Acordo Nacional

‘La Marcha de los Cuatro Suyos’ não derrubou a ditadura fujimorista, mas a debilitou fortemente. Com a queda do fujimorismo, a burguesia rapidamente se reorganizou em torno do governo de Toledo (2001-2006), que desde a campanha prometia “construir o segundo andar do modelo econômico” e que, atualmente, é investigado por corrupção. Nas ruas, o país se dividiu entre uma grande maioria que exigia mudança do modelo neoliberal e uma minoria, encabeçada pela CONFIEP, que defendia o modelo e a constituição fujimorista. A Toledo não restou outra senão manobrar e aglutinar todas as forças da burguesia, igreja e partidos reformistas sob o trapaceiro Acordo Nacional[2] (2002), e transferir o debate sobre a nova constituição para o Congresso. Em 2004, quando esse grande movimento de massas que lutou contra a ditadura desapareceu, o Congresso decidiu encerrar o debate mantendo a corrupta constituição fujimorista.

Uma tarefa que devemos retomar

Se a ‘Marcha de los cuatro suyos’ não derrotou ao corrupto modelo econômico neoliberal nem à constituição fujimorista que se mantém, foi porque os capitalistas e a direita, encabeçados por Toledo, se acavalaram sobre a direção do movimento de massas e, com apoio da esquerda reformista, as centrais sindicais e as ONGs terminaram freando a luta popular, conduzindo-a pela via eleitoral. Recordemos, por exemplo, que o presidente da CGTP[3], José Luis Risco, apareceu se candidatando como vice presidente na coalizão da direita pela lista da Unidade Nacional.

Nós do Uníos na FA, não nos cansaremos de insistir na mobilização como via para derrotar ao governo e seus planos de ajuste. Também, de assinalar que, sem uma direção política consequente que articule a mobilização e a leve até suas últimas consequências; isto é, a tomada do poder por um governo dos trabalhadores, o movimento, por maior que seja, fracassará. Por isso, é necessário unir todas as lutas e os lutadores, para levar adiante um plano econômico alternativo[4] que possa reverter as políticas neoliberais de Vizcarra, e faça com que os capitalistas paguem pela crise, não os trabalhadores. A ‘Marcha de los Cuatro Suyos’ deixou inconclusa uma tarefa histórica que a nós lutadores, cabe concluir.

[1] Alianza Popular Revolucionaria Americana.

[2] Sobre o Acordo Nacional, ver o artigo “El Acuerdo Nacional, um acuerdo contra el pueblo”, publicado no jornal do Uníos de julho de 2020.

[3] Confederación General de Trabajadores del Perú.

[4] A respeito, ver o artigo “Plan económico, ya”, publicado no jornal do Uníos de junho de 2020.

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