O PSOL não pode receber dinheiro de banqueiro!

Nos últimos dias fomos surpreendidos com a informação de que uma das candidaturas do partido em Duque de Caxias recebeu financiamento eleitoral de Armínio Fraga, agente do sistema financeiro e ex-presidente do Banco Central do governo FHC. Fraga foi um dos principais agentes do “plano real”, um dos projetos econômicos que atou profundamente nosso país as ordens do imperialismo. Há também doações de banqueiros ligados ao Itaú e grandes empresárias.

Desde a fundação do PSOL rechaçamos esse tipo de prática pois é necessário ter independência financeira de banqueiros e empresários. Um posicionamento que apresentamos nos vários congressos do PSOL.

A batalha pela independência política

Os socialistas combatem, nas passeatas e greves, os patrões que nos exploram, e os governos burgueses, que retiram direitos da classe trabalhadora. Nas eleições devemos fazer o mesmo: disputar com um programa anticapitalista que tem que se chocar com os banqueiros e empresários. Não há conciliação. Para denunciarmos que o sistema financeiro bate recorde de lucro enquanto a população perde renda, que os grandes empresários arrocham os salários para aumentar seus lucros, devemos ter independência. O que figuras como Armínio Fraga fazem não é doação, mas sim investimento. Depois cobram a fatura, pressionando pelos interesses dos patrões. E não há vacina contra a força material do poder econômico. Por isso foi correta a campanha do PSOL em 2014 afirmando que “quem paga a banda, escolhe a música”. Felizmente, o PSOL tem construído lideranças e parlamentares negras, LGBTs, ativistas, sindicalistas, sem a necessidade de financiamento do sistema financeiro. Agora mesmo nossas candidaturas a prefeitura do Rio de Janeiro e de Niterói não recebem recursos de banqueiros e grandes empresários.

Lutar contra a extrema direita sim, receber grana de banqueiro não!

É errado afirmar que o financiamento dos banqueiros se justifica por conta da luta “contra a extrema direita”. Aqui se mistura uma correta necessidade de enfrentar o governo Bolsonaro com uma errada proposta de financiamento eleitoral burguês. Devemos lutar nas ruas, com passeatas e protestos, em ampla unidade de ação, por ponto concretos ao lado de todos e todas os que queiram luta (pelas liberdades de manifestação, contra a violência policial, em defesa das vidas negras, contra a lgbtfobia e pelos direitos das mulheres, entre outras pautas). Mas isso não significa perder nossa independência política como socialistas.

O grande problema é que Armínio Fraga e os banqueiros do Itaú nada fizeram para enfrentar as manifestações organizadas pelo presidente da república em meio à pandemia. E não fizeram porque tem um ponto de acordo mais importante com a extrema direita: todas as frações da burguesia querem que tenhamos menos direitos trabalhistas, querem diminuir nossos salários, aprovar a reforma administrativa e desejam conter nossas lutas. Esses setores apoiam o projeto econômico do governo, foram agraciados pela aprovação da reforma da previdência e esperam os projetos de privatização das estatais. O sistema financeiro vibrou quando o governo cortou pela metade o auxílio emergencial, por exemplo. Os que fizeram algo contra Bolsonaro foram as torcidas antifascistas e as juventude negras, os trabalhadores dos apps, os carteiros, que nada têm em comum com os projetos do governo. O combate contra a extrema direita está conectado à necessidade de um movimento unificado dos explorados e oprimidos.

A verdade é que todas as vezes que a esquerda utilizou esse tipo de estratégia – se aproximar de um setor burguês dito “progressista, democrático ou anti-imperialista” – terminou perdendo a independência de classe. É impossível construir um projeto político em defesa dos trabalhadores e do povo sendo financiado pela burguesia e se aproximando dela.  Esse tipo de tese pressiona em direção à colaboração de classes, ao rebaixamento do programa, a uma esquerda que busca conter as greves e manifestações para não afugentar seu aliado patronal, uma postura que sempre abriu o caminho para a extrema direita ou para aplicação de duras medidas de ajuste fiscal. A pressão é para se tornar o PSOL mais um partido da ordem. Por isso não podemos receber verbas dos banqueiros ou nos aproximar de seus projetos de financiamento eleitoral.

Aprender com os erros do PT

A experiência da esquerda no Brasil também comprova o que falamos. Nós já vimos o resultado do recebimento de financiamento empresarial com o PT. Ao trocar as lutas operárias por reuniões com banqueiros e industriais, o PT se degenerou e governou com e para a burguesia. A raiz dessa degeneração remonta o ano de 1994, quando as empreiteiras como a Odebrecht passaram a financiar o PT. Nós compusemos os blocos de esquerda que denunciaram esse rumo no interior do PT. Fomos parte dos que alertaram que. por esse caminho. o PT se chocaria com os interesses populares. E infelizmente foi o que ocorreu. O financiamento privado de campanha e a estratégia eleitoralista foi um dos componentes da burocratização do PT e sua capitulação ao regime político burguês. Isso ajuda a compreender por que Lula lançou uma “carta aos banqueiros” em 2002 para manter contratos e os pilares do Plano Real de FHC e Arminio Fraga. Além de ajudar a explicar os motivos que o levou a aplicar em 2003 uma brutal reforma da previdência que retirou direitos dos trabalhadores, para seguir pagando a dívida pública que enche o bolso dos bancos e cumprir as determinações do FMI. Não é do nada que no próprio estatuto do PSOL, votado no congresso fundacional de 2004, consta a proibição do financiamento “provindas, direta ou indiretamente, de empresas multinacionais, de empreiteiras e de bancos ou instituições financeiras” (CAPÍTULO XI – DAS FINANÇAS). E coerentes com essa defesa criticamos o recebimento de recursos por parte de multinacionais como a Gerdau e Tauros no Rio Grande do Sul.

O PSOL nasceu para ser uma alternativa

Essa estratégia de financiamento eleitoral patronal e de conciliar com os banqueiros para governar, levou o PT e seus dirigentes a se corromperem, com os acordos com o PMDB. Levou aos governos comuns com Cabral, Pezão e Paes e ao financiamento empresarial de campanha via empreiteiras. O PSOL denunciou as medidas desses governos, rechaçando o financiamento empresarial e construindo uma saída contra Cabral e Paes, com os trabalhadores, as mulheres, negras e negros e LGBTs.

Mais recentemente, na cidade do Rio de Janeiro, em 2015, a base do partido enfrentou pressões envolvendo o financiamento patronal e conseguiu responder adequadamente. O companheiro Marcelo Freixo recebeu recurso empresariais em sua campanha e gostaria de consolidar essa prática. No entanto o congresso do PSOL carioca votou o veto a qualquer financiamento de empresas para nossas campanhas. Em seguida a CST e LSR apresentaram um adendo à resolução, aprovado por maioria, afirmando que “O congresso do PSOL Carioca veda expressamente que o partido e seus candidatos recebam financiamento de grandes empresários, mesmo que a doação seja feita como pessoa física” (resolução do congresso municipal de 2015).

Esse é o caminho que temos de reafirmar. O PSOL deve repudiar esse financiamento dos banqueiros e deve devolver o que surgir em nossas contas eleitorais. Se necessário for, debater o remanejamento de recursos partidários ao PSOL Caxias e realizar uma forte arrecadação militante. Precisamos apresentar nas eleições e nas lutas um programa que diga que os ricos têm que pagar a conta da crise, com a profunda taxação das grandes fortunas e a suspensão do pagamento da dívida pública. Nosso apoio não virá dos banqueiros, mas sim nas mobilizações feministas pela legalização do aborto, nas marchas dos servidores públicos contra a reforma administrativa, na luta da juventude contra a catástrofe climática capitalista e nas mobilizações antirracistas que enfrentam o genocídio da polícia e todos e todas os explorados e oprimidos.

 

Babá, Servidor da UFRJ, vereador do PSOL Carioca e candidato à reeleição

Bernarda Thailania, servidora da UFF, candidata a vereadora pelo PSOL-Niterói

Corrente Socialista de Trabalhadores e Trabalhadoras – Tendência do PSOL

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