Alta do arroz, queimadas no Pantanal: a Independência de Bolsonaro é só mais uma Fake News

Rana Agarriberri, formada em Nutrição pela UFMG e da Coordenação da CST SP


Há algumas semanas o Brasil e o mundo acompanham os devastadores incêndios no Pantanal. Após menos de 2 anos de gestão Bolsonaro, a biodiversidade do país é consumida pelas chamas que avançam sobre as reservas naturais e terras indígenas.

Segundo dados do LASA (Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais), do Departamento de Meteorologia da UFRJ, o fogo já destruiu 3.461 hectares, o equivalente a 23% do bioma, entre janeiro e setembro de 2020. Em relação às terras indígenas, todos os sete territórios do Pantanal foram atingidos.

A grande “coincidência” é que justamente nesse momento o dólar bate recordes, e a demanda de soja pela China aumenta. Internamente, vemos o aumento dos preços dos alimentos, destacadamente o arroz, e o óleo de soja, mas também o leite e a carne bovina.

Apesar do discurso feroz contra a China, Bolsonaro nos coloca de joelhos, vendo nossos recursos naturais queimarem e com o povo passando fome!

 

Desindustrialização e entreguismo: breve histórico

Com a crise econômica desencadeada em 2007-2008, e chegando ao Brasil com força através dos ajustes de Lula e Dilma, cresceu a pressão do FMI e da burguesia brasileira por mais recursos para a Dívida Pública, mas também para o agronegócio e a indústria extrativa mineral.

Nas últimas 2 décadas não houve um ano sequer sem que os Governos promovessem algum tipo de corte na educação, diminuindo os investimentos em pesquisa e infraestrutura. Instrumentos fundamentais para avançar na Industrialização e exportação de produtos com maior valor agregado.

O fato é que estamos diante do menor crescimento da Indústria de transformação no Brasil, ante o crescimento vertiginoso do agronegócio e da indústria extrativa minerária.

Como um sistema mundial, o capitalismo dividiu o mundo entre países dominados e dominantes, e é nesse primeiro grupo que o Brasil se encontra, na Divisão Mundial do trabalho.

Desde que se firmou como Imperialismo dominante, os EUA incentivaram um processo de centralização de capitais em todo mundo, através das suas multinacionais. Durante a Segunda Guerra, Getúlio se rendeu ao imperialismo ianque e celebrou um acordo onde o Brasil se comprometia a adaptar sua indústria às necessidades de Guerra dos EUA, fornecendo minério de ferro e aço. A criação da Companhia Vale do Rio Doce e CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) ocorreu nesse período. Os EUA transformaram o Brasil então, na plataforma continental de dominação como submetrópole privilegiada, totalmente dominada.

O Estado Brasileiro forneceu investimentos variados para viabilizar a instalação das multinacionais como a mineração, siderurgia, energia, estradas, portos e petróleo. Claramente a industrialização nunca teve como projeto o desenvolvimento nacional, mas sim a melhor forma de servir ao imperialismo.

A partir dos anos 90 se intensificou a desindustrialização, com permanente desinvestimento, onde o emprego industrial, como o valor da Indústria se reduzem em proporção ao emprego total e ao PIB. Ao mesmo tempo ocorre o crescimento do agronegócio e da Indústria extrativa mineral. O que vivemos hoje, é o aprofundamento dessa política submissa e entreguista aplicada ao longo de décadas pelos sucessivos Governos, mas agora o Governo Bolsonaro privilegia não apenas os EUA como o Estado capitalista Chinês, apesar dos discursos inflamados.

 

Aumenta a demanda por soja lá, aumenta a demanda por terras aqui!

A China, com uma população gigante de quase 1,4 bilhão de pessoas tem um mercado consumidor voraz, e se tornou a grande importadora do Brasil durante o Governo Lula, quando o seu crescimento desencadeou o boom das comodities. Ao longo dos últimos anos a parcela da China nas exportações só aumentaram: entre 2017 e 2018 passou de 21,8% para 26,8%.1

Bolsonaro sempre se mostrou preocupado com nossa relação com a China. No entanto, nesses 18 meses de Governo a dependência da China só aumentou. Em abril de 2018 a China já era o maior freguês brasileiro, consumindo 26,96% do que o Brasil exportava, mais do que EUA, Argentina, Holanda e Chile somados (25,38%). Porém no primeiro semestre de 2020 os Chineses compraram 40% das exportações brasileiras2, principalmente a soja para alimentar a população de porcos do mercado interno chinês.

O aumento da demanda por soja lá, fez aumentar a demanda por soja aqui, e consequentemente por terras para o plantio. O que impulsiona as queimadas de áreas selvagens como a Amazônia e o Pantanal, alimentado pela política pró-agronegócio de Jair Bolsonaro e Ricardo Salles, que recentemente tentou aprovar a extinção de regras ambientais que protegem restingas e manguezais. A pilhagem de terras para o agronegócio é fato conhecidíssimo e antigo.

Em pesquisa Coordenada por Raoni Rajão (Professor de Gestão Ambiental da UFMG) e publicada pela Science, das 53 mil propriedades que cultivam soja na Amazônia e no Cerrado, 20% foram desmatados após 2008, cerca de metade delas em condição “potencialmente ilegal”. O documento também afirma que até 22% da soja e pelo menos 17% da carne bovina produzidas na Amazônia e no Cerrado e exportadas para a União Europeia podem ter rastros de desmatamento ilegal.

Queimar a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal para plantar mais soja traz lucro em dólares para alguém. E esse lucro segue indo para os bolsos do imperialismo ianque, porque a empresa que mais fatura com a exportação de soja nacional, é a norte-americana Cargill, que obteve lucro líquido de US$ 1,19 bilhão em seu segundo trimestre fiscal, encerrado em 30 de novembro de 2019.

 

A submissão em outro patamar

Tudo isso coloca em risco a segurança alimentar e nutricional do povo brasileiro, e foi justamente em nome dessa segurança que a China parou de plantar soja. Em 1954 o país produzia 44% de toda soja do mundo, já em 1980 produziu apenas 9,3%; hoje esse número não chega a 5% e o país importa 80% do que consome.

O stress hídrico (quando a demanda por água é maior do que sua disponibilidade e capacidade de renovação) é algo que o Governo Chinês entende muito bem.

Segundo relatório apresentado pela ONU no 8º Fórum Mundial da Água (2018), a falta de água afetará 5 bilhões de pessoas em todo mundo até 2050. Exatamente por isso o Governo Chinês já gastou cerca US$80 bilhões no maior e mais longo projeto de desvio de águas no mundo.

O Projeto de Transferência de Água Sul-Norte, quando pronto carregará 45 bilhões de mde água (ou 45 trilhões de litros), por ano.

Através da soja, o Brasil enviou para a China (em 2013) 32 milhões de toneladas de soja ou, 71 bilhões de mde água (71 trilhões de litros)3. Sim, quase o dobro do que o Projeto planeja carregar!

O preço da soja é fixado em dólar, e por isso quanto mais desvalorizado o real, maior a margem de lucro do agronegócio. Por isso a política de Bolsonaro de desvalorização da moeda nacional não é um “erro” mas um projeto!

O desdobramento interno é o aumento do preço de outras comodities, como o arroz e o óleo de cozinha, produtos que também são comercializados em dólar e fazem parte da base alimentar dos trabalhadores no Brasil.

De janeiro a agosto de 2020, foram vendidos US$ 407,2 milhões em arroz por produtores brasileiros. O dado é do sistema de dados Comex Stat do Ministério da Economia e indica alta de 81,4% na comparação com o mesmo período de 2019. Aqui a alta acumulada do arroz no ano, foi de 19,25%, segundo o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), já o feijão alta de 30%, o leite +23% e os ovos +7,1%.

Esses aumentos penalizam ainda mais os trabalhadores em tempos de pandemia. Somados a suspensão dos contratos de trabalho e salário, a demissão em massa, a redução do auxílio emergencial e a privatização dos serviços públicos, somos catapultados para o início do século passado, com alta dos alimentos, indústria interna engatinhando, e sem direitos! É necessário derrotar o projeto de Bolsonaro!

 

Defender o meio ambiente e combater o entreguista Bolsonaro

A submissão do Estado brasileiro é consequência direta das relações internacionais que são estabelecidas dentro do sistema capitalista. A solução não é fácil, menos ainda simples. Para enfrentar todo esse quadro histórico de submissão às multinacionais americanas, ao agronegócio e a indústria extrativa mineral é fundamental que haja um Governo do povo e dos trabalhadores, que de fato avance no modo de produção e coloque de pé a Indústria Brasileira a serviço das necessidades do povo.

O caminho para essa tarefa passa pelas lutas. Defender o meio ambiente, impulsionar a Greve Global pelo clima, aprofundando o debate sobre o papel que cumprimos dentro do capitalismo mundial.

Desenvolver o país para atender as necessidades do povo, coloca na ordem do dia a produção de alimentos para atender ao mercado interno, antes de qualquer coisa, baixando assim o preço do que o povo mais consome.

Ao mesmo tempo é necessário exigir o fim da anistia de multas ambientais que Bolsonaro aplica para defender fazendeiros e grileiros. É necessário destinar recursos para a criação de um fundo estatal de conservação e preservação das matas, florestas, manguezais, restingas, cerrado e pantanal. É preciso combater o desmatamento e garantir a preservação de espécies da Fauna e Flora pois sabemos que são interligados e dependentes.

Reestatizar empresas como a Companhia Vale, a CSN, por uma Petrobrás 100% estatal, e reverter o processo de produção monocultural de soja para exportação. Todo esse processo deve ser desenvolvido junto aos trabalhadores rurais através de Reforma Agrária em todo território nacional.

Combater o Governo submisso e entreguista de Bolsonaro e Mourão é a tarefa número um de todos que defendem o meio ambiente e a soberania nacional!

 

1Indicador de Comércio Exterior (Icomex) de janeiro de 2019, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV).

2Secretaria de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura.

3Água virtual e o complexo soja: contabilizando as exportações brasileiras em termos de recursos naturais. IPEA, 2016

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