Sobre a “Frente Ampla” e a campanha de Guilherme Boulos

Diego Vitello – Coordenação Nacional da CST e Diretor do Sindicato dos Metroviários de São Paulo


Saímos do primeiro turno com um avanço eleitoral do PSOL em todo país. A cidade que mais simbolizou esse avanço sem dúvidas foi São Paulo. Não apenas por ser a maior do país, mas sobretudo pelo expressivo resultado eleitoral. O PSOL passa de dois para seis vereadores na Câmara Municipal e ultrapassa os 20% dos votos para a prefeitura, chegando ao segundo turno.

O PSOL consegue, mesmo com apenas 17 segundos de televisão, capitalizar de forma muito positiva um voto contra a direita, contra Bolsonaro e em defesa dos setores oprimidos: negros, lgbts e mulheres.

Todo esse expressivo resultado que renovou as esperanças de centenas de milhares de jovens e trabalhadores e que comemoramos ao lado da militância do PSOL, se deu em uma aliança eleitoral de independência de classe, ao lado do PCB e da UP.

No segundo turno, esse marco de alianças se ampliou, e vimos essa semana a aparição de Lula, Ciro, Marina e Flávio Dino no programa de TV do PSOL chamando voto em Boulos. Sobre essa ampliação queremos debater com todos companheiros que estão conosco batalhando na campanha de Boulos.

É necessário uma “frente ampla” com PT, PDT, PCdoB e Rede?

Muitos companheiros e organizações políticas de dentro e de fora do PSOL viram como positivo a ida desses partidos ao programa de TV de Boulos. Que essa seria a fórmula que nos permitiria ganhar a eleição de fato é “unir a esquerda”.

De nossa parte, não vemos assim.

Infelizmente Lula, Ciro, Dino e Marina representam projetos de conciliação de classes ou até diretamente burgueses.

Nem precisamos entrar nos 13 anos que PT e PCdoB governaram ao lado de partidos como o MDB, PL, é onde o PSOL foi oposição de esquerda a esses governos. Hoje mesmo, nos estados comandados por esses partidos vimos governos estaduais aplicando Reformas da Previdência muito similares a de Paulo Guedes, vimos o governador Camilo Santana do PT do Ceará, ordenar a polícia militar para reprimir manifestação de professores. Como bem denunciou a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação em nota do dia 18/12/2019: “A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação – CNTE, entidade representativa dos profissionais da educação básica do setor público brasileiro, condena de forma veemente a violência empregada pela Polícia Militar do Estado do Ceará, subordinada ao governador Camilo Santana (PT), contra a manifestação legítima e pacífica de um conjunto de movimentos sociais, sindicais e estudantis no dia de hoje (18/12) em Fortaleza/CE.”[1]

Denunciamos também que o Maranhão de Flávio Dino foi um dos primeiros estados a ordenar a volta as aulas. Ao encarar à pandemia (que nada mais é do que a defesa da vida do povo) todos os dados apontam que a política desses partidos nos estados onde governam nada diferiu dos estados governados por partidos abertamente de direita.  Poderíamos elencar muitas políticas mais desses partidos à frente de governos estaduais e municipais nos últimos dois anos, porém o que queremos colocar é que esses projetos de governo não nos servem. O PSOL precisa trilhar o caminho do enfrentamento aos interesses das elites dominantes nas cidades onde governa.

A ida de Lula, Ciro, Marina e Dino ao nosso programa eleitoral, tem centralmente o objetivos de “moderar” a candidatura de Boulos e tentar impor que o “máximo” que se pode fazer em um governo é o que eles fazem hoje em nível estadual e municipal onde governam. Esse modelo não pode ser o do PSOL.

A política de frente ampla, tem levado setores do PSOL e partidos que defendem essa política a chamarem voto na candidatura de Eduardo Paes do mesmo DEM de Rodrigo Maia no Rio de Janeiro, com o argumento fora da realidade que seria um voto para “derrotar a extrema-direita”.

A relação com o PT em São Paulo também fez com que, Marília de Andrade,

multimilionária herdeira da construtora Andrade Gutierrez, que foi durante muitos anos filiada ao partido de Lula, fosse uma das principais doadoras da campanha de Boulos, fato bastante noticiado ontem.

Por isso tudo que colocamos, opinamos que apesar de aparentar ser um “atalho”, a política da frente ampla é na verdade uma armadilha para moderar o programa de governo do PSOL nos levando ao beco sem saída da conciliação de classes.

Levar Boulos à prefeitura virando votos é a tarefa dos próximos dias

Fazemos esses alertas para abrirmos debates que consideramos necessários na esquerda e no PSOL. Esses debates seguirão, com certeza e não podemos fugir deles.

Porém, temos quatro dias pela frente ainda de campanha eleitoral. Dias decisivos onde podemos virar o jogo e impor uma derrota histórica aos tucanos em São Paulo levando nosso companheiro Guilherme Boulos à prefeitura. A nossa campanha tem crescido e avançado. A virada é possível. Uma vitória do PSOL na maior cidade do país significaria também um duro golpe para Bolsonaro e a extrema-direita, que já não saíram bem do primeiro turno e podem amargar ver uma liderança de movimentos sociais à frente da prefeitura da capital paulista.

A grande tarefa que temos pela frente é estar nas ruas durante esses dias, virando votos, debatendo com a população e fortalecendo um projeto de esquerda para São Paulo e para o Brasil. Concomitantemente a isso, seguiremos fazendo os debates sobre os rumos da esquerda brasileira sabendo que após as eleições temos que nos preparar para enfrentar nas ruas os ataques que os governos pretendem implementar na classe trabalhadora.

[1] https://cnte.org.br/index.php/menu/comunicacao/posts/mocoes/72667-educadores-repudiam-violencia-da-policia-do-governo-do-ceara-contra-trabalhadores-e-estudantes

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