Nahuel Moreno | Frente operária: a origem de uma tática

 

 

(Janeiro de 1982, na Conferência de Fundação da LIT-CI)

 

(Originalmente publicado na revista “Panorama Internacional”, nº 20, maio de 1982 – revista editada pelo PST na clandestinidade)

 

Antes de qualquer coisa, devo esclarecer que o nosso novo enfoque no tema faz cair por terra o que escrevemos nas teses da CI-CI em relação à frente operária. Nós não vamos fazer a manobra que faz Lambert e vamos dizer as coisas como efetivamente são.

 

Naquele momento, consideramos que o que diziam as teses sobre a frente única operária era correto e um aporte colocado pelos companheiros da OCI (u). Foram eles que insistiram no seu conteúdo, e nós aprovamos. Nós não estávamos suficientemente maduros.

 

Agora é diferente: os [casos] de Mitterand e da Nicarágua nos levam a fazer uma nova reflexão sobre essa tática e o que escrevemos agora é uma descoberta para nós.

Faz tempo que suspeitamos que na tática da frente operária havia problemas. Viemos trabalhando sem encontrar saída. Há muitos anos, acreditávamos que era uma estratégia. Foi um erro e logo corrigimos: a frente única é uma tática. Durante a Revolução Russa, essa tática só se aplicou por uns 15 dias. Trotsky disse isso categoricamente, segundo as citações que temos aportado. A leitura de Lenin corrobora com ele. Ele [Lenin] afirma que não se deve fazer nenhum acordo com os mencheviques e socialistas revolucionários em toda a etapa, ainda que a frente operária – como todos sabemos – é um tipo especial de acordo que se propõe ao reformismo. Durante o levantamento de Kornilov, [Lenin] muda e propõe aos social-traidores um acordo ou frente, apenas por 15 dias, tal como comenta Trotsky.

 

Ou seja, a política bolchevique no ano de 1917 foi levada a cabo sem utilizar a tática da frente única. Pelo contrário, a grande consigna de Lenin em 1917 foi a de “nenhum acordo” com os partidos oportunistas, porque formam parte do governo ou o apoiam.

 

A tática de frente única operária surgiu entre o III e IV Congressos da Terceira Internacional. É, portanto, uma tática posterior à Revolução Russa.

 

Aos que estão de acordo com a OCI (u), isso coloca alguns problemas: por acaso os bolcheviques descobriram, em 1921, uma estratégia ou tática permanente, que por ignorância não utilizaram antes, e que, se tivesse sido aplicada, teria facilitado a Revolução Russa?

 

Nós acreditamos que não. Que [a frente única] é uma tática e, como tal, se aplica em determinados momentos. Essa tática surgiu quando a III Internacional descobriu que, por conta de não ter triunfado a revolução europeia, os partidos sociais-democratas seguiam sendo amplamente majoritários. Isso os obrigou a mudar as táticas elaboradas pelo Primeiro e Segundo Congressos da III Internacional.

 

Durante esses congressos, a Internacional Comunista havia seguido a política de Marx e Engels, “para uma classe operária, um partido”. Todo o marxismo – desde Marx – se desenvolve seguindo a concepção de que os nossos partidos não deviam ser marxistas, mas que toda a classe operária devia ter um só partido, com sua linguagem e ideologias próprias, a tal ponto que, em sua famosa carta a Sorge, Marx sustenta que o partido operário dos Estados Unidos deveria falar e pensar como a própria classe, apesar das suas concepções semimaçônicas.

 

Foi Kautsky, que quando jovem não era um político ruim, quem começa a insistir que se deve construir partidos marxistas. Reivindica o marxismo para lutar contra a ala intelectual, pequeno-burguesa, do Partido Social-Democrata Alemão. Assim, surgiu o conceito de partido operário marxista, que significa que, se não é marxista, não é operário, e que se estendeu da Alemanha para todos os países adiantados.

 

Ambas as concepções, a de Marx – “uma só classe, um só partido” – e de Kautsky – “um só partido, porém marxista” -, são adotados pela III Internacional em sua fundação.

 

Surge uma tática nova

 

O Primeiro e o Segundo Congressos da III Internacional afirmavam que se a revolução triunfasse na Alemanha e em um ou dois países mais, a social-democracia entraria em uma crise sem saída e, então, haveria apenas um partido operário hegemônico, o comunista. Porém, logo após o Segundo Congresso, quando fracassa a revolução na Europa, Lenin, Trotsky e a III Internacional se enfrentam com o fato de que a social-democracia segue sendo amplamente majoritária.

 

Isso se combina com a relativa estabilização do capitalismo, o refluxo do movimento operário europeu e, por último, mesmo que a revolução operária não tenha triunfado, os partidos comunistas se transformaram em partidos de massa, ainda que minoritários.

 

Essa nova situação coloca a necessidade imperiosa de ganhar os trabalhadores sociais-democratas para poder realizar a revolução socialista. A tática da frente única surge dessa necessidade conjuntural e esporádica. Como tal, é parte da estratégia de varrer da classe trabalhadora os partidos socialistas, para alcançar a hegemonia do partido comunista. É uma tática para debilitar os sociais-traidores por meio da proposição e execução de ações comuns, sentidas por ambos os partidos.

 

A tática não colocava a união ou acordos permanentes com os partidos sociais-democratas. A sua estratégia e princípio era destruí-los. Precisamente, a III Internacional alerta sobre os perigos de pretender levantar consignas máximas ou programas de revolução operária com os partidos operários traidores. Sustenta que fazê-lo é traição e não frente única, porque equivale a depositar alguma confiança revolucionária neles.

 

Quando o stalinismo aplicou essa tática com a direção sindical inglesa, dizendo “façamos uma frente única para ajudar os grevistas ingleses”, Trotsky disse que se tratava de uma das maiores traições, uma vez que se deveria ter proposto que os sindicatos russos apoiassem diretamente a greve mineira, por meio da ala revolucionária do sindicalismo inglês, para derrotar a direção sindical burocrática. Nunca, durante a grande greve inglesa, deveria se aplicar a tática da frente única, e sim a [tática] de apoio à greve, para derrotar não só a patronal e o governo Inglês, mas também a burocracia sindical.

 

A tática da frente única é um convite. E só pode ser proposta quando há pontos em comum entre os partidos reformistas e revolucionários. Se um partido operário está a favor dos planos de austeridade que aplica o governo, é impossível que se tenha uma frente única com esse partido por aumento salarial. A base da frente única é que, em um ponto determinado, as massas reformistas (que não acreditam na revolução) e seus dirigentes (que querem se acomodar), levados pela luta de classes, se veem obrigados a levantar alguma consigna de luta contra o capitalismo. Por exemplo, quando o governo de Isabel Perón, na Argentina, baixou os salários em 40% e a classe operária e muitos dirigentes peronistas estavam furiosos, nós convidamos a burocracia e os trabalhadores que a seguiam a lutarmos juntos para recuperar o poder aquisitivo. Assim, foi feita uma greve geral impressionante.

 

O que significa dizer que a frente operária é uma tática? Que é só uma ferramenta, um meio entre outros, para construir o partido, ganhando setores da classe trabalhadora para ele. Dito isso, afirmar que é “a tática” ou uma estratégia significa dizer que é a única ferramenta e meio de que o partido dispõe para se construir e para conquistar uma maior audiência na classe trabalhadora. Ou, no mínimo, que é uma ferramenta ou meio privilegiado.

 

Nossa estratégia, nossa tarefa central, à qual tudo está subordinado, é transformar as nossas organizações em partidos com influência de massas, cada vez com maior influência operária, com mais e mais quadros operários nas suas filas. Essa é a estratégia. E sempre que se fala de tática, ela tem que se referir a essa estratégia.

 

A OCI vem dizendo há anos que a frente única é uma estratégia ou tática privilegiada (o que é a mesma coisa). Nas teses, se diz que é uma tática, por uma concessão que nos fizeram. Levamos para eles os textos de Trotsky, onde escreve que a frente única operária é uma tática. Logo buscaram uma única citação de Trotsky na qual diz que é uma tática não circunstancial, que se refere, concretamente, a um momento da luta de classes em um país: a etapa prévia a ascensão de Hitler.

 

Se tomamos a frente única operária como uma tática permanente ou privilegiada, significa que a forma permanente de construir o partido, ou a ferramenta ou o meio privilegiado, é o acordo com os partidos operários traidores. A OCI (u) é consequente quando põe, de fato, um sinal de igual entre a construção do partido e a tática da frente operária.

 

Uma tática para cada situação

 

Para nós, cada etapa da luta de classes exige diferentes meios ou táticas para construir o partido. Elas não surgem somente da luta de classes, mas sim da relação que se estabelece entre esta e o partido.

 

Essa relação não é estética nem científica. Não estudamos a realidade só para conhecê-la e nos emocionarmos. Tampouco elucidamos a situação do nosso partido como historiadores ou sociólogos.

 

Estudamos as duas realidades, a luta de classes e o partido, para buscar os meios que fortaleçam o partido. É uma análise interessada, política. Isso é tão verdade que tais meios ou táticas mudam não apenas com a realidade objetiva, mas também com a do próprio partido. Supondo duas situações objetivas parecidas, teríamos táticas muito diferentes se a nossa organização for constituída por 20 estudantes ou por 20.000 operários metalúrgicos ou mineiros.

 

Isso explica, entre muitas outras táticas, aquela do entrismo nos partidos socialistas, dos anos 1930. Se já fossemos organizações operárias poderosas, não teríamos feito o entrismo. Essa foi nossa tática central durante dois ou três anos, e não a da frente única operária, porque éramos pequenos grupos. O entrismo foi a tática privilegiada em um determinado momento do trotskismo, e foi a negação da tática da frente única, ainda que, na França, tenha servido, durante um curto lapso de tempo, para intervir na frente única acordada entre os Partidos Socialista e Comunista. Era um meio para levar a rupturas nos partidos socialistas, o mais rápido possível, desde dentro. Entrou-se neles não para desenvolver uma frente única com a direção, mas para denunciá-la e fazer a esquerda socialista romper com ela.

 

As táticas dos partidos revolucionários são infinitas. Mudam de acordo com cada situação. Por exemplo, o PST da Argentina, quando se apresentou às eleições (o maior acerto tático da sua história, que o converteu em um partido nacional e permitiu “apropriar-se” de um pequeno setor do movimento de massas), praticou uma tática oposta à frente única: a [tática] do polo operário e socialista. Isso significou unir os ativistas classistas e socialistas para se opor às organizações e direções operárias que praticavam a conciliação de classes. Se alguém do nosso movimento tivesse dito que não deveríamos nos apresentar às eleições porque a tática correta era realizar a frente única operária da CGT e dos partidos operários, teria cometido um crime.

 

Por isso, para mim, os defensores da frente única como tática privilegiada ou estratégia cometem o grave erro de acostumar as nossas direções a não pensar as verdadeiras táticas que se impõem. Falsamente, acreditam ter solucionado o problema para sempre, repetindo como muleta “frente única operária”. Trata-se de um grave erro metodológico, que se soma ao erro político, de se adaptar aos partidos contrarrevolucionários, como únicos interlocutores válidos.


Para aprofundar temas relacionados indicamos: A traição da OCI

Leia também:

Prólogo da obra O Partido e a Revolução – Teoria, Programa e Política: Polêmica com Ernest Mandel

 

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